Analisando As Falhas de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 1 – Introdução

Gostaria de abrir este artigo com um pedido de desculpas. O Mural Científico preza pela simplicidade e praticidade dos seus textos – ciência transmitida de forma curta, rápida e divertida. Infelizmente, porém, nem tudo pode ser curto e objetivo – às vezes, precisamos nos perder em detalhes, especialmente quando estamos combatendo uma visão errônea. Este texto não é um texto apenas para ser lido, mas para ser usado. É uma ferramenta, uma arma, em um embate entre a ciência e a ignorância. Este não será um texto único, mas uma série, publicada ao longo dos próximos dois meses (e, ao final, todos os artigos estarão linkados nesse, de forma que você terá uma ferramenta prática para usar quando necessário).

A Evolução por meio da Seleção Natural é possivelmente a teoria científica mais bem estabelecida da história, e certamente a mais bem estabelecida dentro das Ciências Biológicas. A Evolução é o processo pelo qual organismos mudam ao longo do tempo devido ao acúmulo de alterações hereditárias em caracteres físicos, fisiológicos ou comportamentais. Proposta por Charles Darwin e Alfred Wallace, a Teoria da Evolução por Seleção Natural propõe que a natureza selecionava organismos mais aptos à sobrevivência dentro de um dado ambiente através da competição entre estes seres. Os indivíduos mais aptos sobrevivem mais e tem uma maior chance de transmitir seus genes, enquanto os menos aptos eventualmente desaparecem e morrem. Trata-se de “descendência com modificação”.

A Evolução é absolutamente eficaz em explicar o surgimento das diversas estruturas e funções dos organismos vivos, e é sustentada por diversos ramos da ciência: A anatomia, a embriologia, a genética, a paleontologia, a biologia molecular, todas elas são unânimes em demonstrar a Evolução como um processo factual, e a Seleção Natural como o principal fator de impulso evolucionário (Junto da Mutação, da Deriva Genética e da Migração, que também oferecem importantíssimas contribuições). Apesar dessa sustentação, algumas pessoas insistem em defender uma resposta alternativa: A Teoria do Design Inteligente.

O próprio nome “Teoria do Design Inteligente” é uma falsidade. Primeiro, pelo termo “Teoria”. Teoria, em Ciência, é o mais alto grau de verdade que algo pode alcançar. Dentro da ciência, “teoria” pode ser lido como “o mais próximo que a ciência pode chegar de um fato”. Muitos tem a ideia que uma Teoria é uma ideia que, quando comprovada, vira uma lei, mas isso está errado. Uma explicação só vira uma teoria após exaustivos testes, exaustivas discussões dentro da academia e exaustivas confirmações. Teorias são sustentadas por evidências, não meras conjecturas. Antes de passar por esse processo, uma teoria é uma Hipótese – uma ideia. Essa ideia é então testada, geralmente levando a um artigo que irá confirmá-la ou derrubá-la. Outros estudos que se apoiem nesta hipótese também serão, indiretamente, testes dela. Uma teoria é correta até ser derrubada – quando inconsistências surgem, a teoria pode ser reformulada em face destas novas observações, ou substituída por completo. E, no que toca à evolução, essas inconsistências ainda não emergiram. A Lei científica é uma descrição, geralmente matemática, e tem o mesmo valor de verdade da Teoria. Ambas são embasadas por evidências empíricas – a Teoria explica, enquanto a Lei descreve. A “teoria” do Design Inteligente não pode ser uma teoria por não possuir embasamento empírico, não ter comprovação, como demonstraremos ao longo dessa série.

A Evolução é a base da biologia moderna, e existem milhares de pesquisadores estudando evolução no mundo todo. A Evolução tem sido testada, direta ou indiretamente desde a sua proposição por Darwin em 1859. São 158 anos de testes. E, nestes 158 anos, a Evolução se manteve de pé como a explicação mais adequada aos olhos dos cientistas que trabalham com Ciências Biológicas (a única opinião que importa: a de quem entende). Isso seria impossível de acontecer se a Teoria fosse falha – não se edifica uma casa tão sólida quanto toda a Biologia sem uma fundação igualmente sólida. A casa já teria ruído se a base fosse falha.

A Evolução é uma Teoria Científica, ou seja, uma explicação sustentada por evidências, corroboradas por milhares de estudos independentes. O Design Inteligente não.

A parte “Design Inteligente” também é uma enganação. Design Inteligente nada mais é do que uma nova roupagem para o bom e velho Criacionismo. Às vezes o movimento tenta negar, afirmando que o Design Inteligente não implica necessariamente em uma criação divina, apenas “de uma inteligência superior”. Não caiam nessa. A TDI é majoritariamente e fundamentalmente religiosa, e nasceu em grupos religiosos; é o resultado de um desejo de conferir uma credibilidade científica à existência de uma divindade e sua criação da vida na Terra. Essa nova roupagem nasceu nos movimentos criacionistas americanos, de forma a tentar colocar o criacionismo/”DI” nas escolas.  Esse desejo por credibilidade, porém, ignora o rigor intelectual que torna a ciência tão respeitada em primeiro lugar. É uma trapaça – o desejo de ser reconhecido sem ser bom, o desejo de ser bem-sucedido sem trabalhar, o desejo de ser científico sem fazer ciência. Nas palavras de Carl Sagan, é tentar se apropriar da credibilidade da ciência sem se submeter à metodologia rigorosa que gera essa credibilidade.

Quero ressaltar que não adentrarei no caráter religioso deste debate. Se Deus existe ou não, não importa, ao menos não para este debate científico. Apenas uma coisa importa: com ou sem Deus, a evolução é uma realidade. Não espere que a realidade se altere para se conformar à sua religião.

É importante entender que não se trata de alguma espécie de devoção religiosa à evolução, tampouco. As teorias de Darwin não eram perfeitas, ou mesmo completas – de fato, a evolução só foi entendida de fato quando a genética mendeliana foi inserida, o que ficou conhecido como “Síntese Moderna” ou “Neodarwinismo”: O casamento da evolução de Darwin com a genética de Mendel. A falha da teoria de Darwin era não saber explicar como estes caracteres eram transmitidos de pai para filho, pois Darwin não havia tido contato com os conhecimentos de Mendel (cuja completa importância não foi compreendida pelo próprio monge, e só foi plenamente incorporada à comunidade científica no início do século XX). Existe inclusive uma lenda urbana que diz que Darwin possuía uma cópia dos escritos de Mendel… Mas não chegou a lê-los. Portanto, como qualquer teoria científica, a Evolução é passível de ser aperfeiçoada conforme novas evidências surgem.

Também é importante entender que os Criacionistas/DIs estão abordando a questão pelo lado errado. Não somos nós, o público leigo, que temos que debater um paradigma científico (E me incluo aqui porque, apesar de ser um estudante e um cientista, eu não trabalho com evolução e, portanto, sou leigo nesse assunto). A Ciência é absolutamente aberta à desafios aos seus “dogmas”, e a Evolução não é exceção. Mas esse desafio não é feito em blogs e canais no youtube, com o público geral – ele é feito na ciência, entre cientistas e seguindo o rigor do método científico, em artigos científicos, revisados por pares, publicados em periódicos científicos de qualidade e relevância, onde os dados publicados serão avaliados por uma comunidade internacional de pesquisadores que irão decidir a validade ou não das conclusões extraídas daqueles dados. Primeiro você convence a Ciência para então ser ensinado ao público. Fazer o caminho inverso é trapaça.

E esse debate já aconteceu! Talvez seja por isso que cientistas e divulgadores se irritem tanto com Criacionistas modernos. Não existe nada errado em desafiar um paradigma, mas você precisa saber a hora de desistir de uma causa perdida, ou pelo menos procurar por questionamentos verdadeiramente novos. Esse debate era relevante dentro da academia em 1850. Hoje, ele não é – esse debate já está efetivamente encerrado dentro da ciência há muitas décadas. E é por isso que os Criacionistas não debatem dentro da Ciência – porque eles sabem que dentro da ciência eles não vencem mais, não existe mais ponto de ataque. Todos os argumentos já foram derrotados nas exaustivas batalhas de um século atrás, e a Evolução se demonstrou a explicação superior. Os criacionistas são bem-vindos à procurarem novos ângulos, novos argumentos, e ajudar a melhorar a teoria mas, ao invés disso, preferem insistir nos pontos que já foram derrubados diversas vezes. Como veremos nesta série, os argumentos se repetem, e todos já foram refutados há algumas décadas – mas o público leigo nem sempre sabe disso, então é fácil enganá-lo.

Deixamos aqui como fonte um texto da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos da América, onde eles narram a historia do caso Kitzmiller vs Diver Area School District, que tentou forçar o ensino do criacionismo em escolas americanas nos anos 80, e como ele foi derrotado. Trecho traduzido: “Em 20 de dezembro de 2005, John E. Jones III, Juíz Federal pelo Middle District de Pennsylvania, emitiu uma decisão de 130 páginas declarando que ‘Evidências esmagadoras no julgamento estabeleceram que o Design Inteligente é uma visão religiosa, uma mera nova rotulação do Criacionismo, e não uma teoria científica… O Design Inteligente não é sustentado por nenhuma pesquisa, dados ou publicações revisados por pares'”.

Eis qual foi a minha surpresa, porém, quando, em uma discussão um ano atrás com uma página criacionista (cujo nome não será mencionado, pois a última coisa que desejo é dar ibope para maluco), eu tive este último ponto contestado! Legitimamente surpreso, pedi pela suposta lista de artigos científicos que dariam sustentação ao Criacionismo/DI. E eu recebi essa lista – antes de ser sumariamente banido da página, é claro (debate honesto nunca foi o forte dos movimentos criacionistas). Mais surpreso ainda fiquei ao ler os títulos e observar que, de fato, pareciam ser artigos publicados por cientistas legítimos, em periódicos legítimos.

Então, decidi dar uma olhada nestes artigos, um a um, e dar uma pesquisada: avaliar os dados, as conclusões, as revistas que estão publicadas, o impacto que estes artigos tiveram e o que outros cientistas, muito mais entendidos do que eu, tem a dizer sobre esses artigos. Assim, nessa tarefa, além de contar com minhas impressões pessoais contarei principalmente com respostas que estes artigos já tiveram no passado. Quando outras opiniões não estavam disponíveis, consultei colegas mais entendidos do que eu, ou procurei falhas mais gerais na publicação – como periódicos falsos ou inúteis, análise da relevância acadêmica do artigo, etc.

Então vamos as regras. Um artigo será considerado válido se:

  1. For, de fato, um artigo científico revisado por pares e, de preferência, em revistas com fator de impacto calculado. A unidade fundamental da ciência é o artigo científico, e ele é mais confiável porque ele passa por Revisão por Pares – ou seja, três outros cientistas, independentes da revista e anônimos para o pesquisador autor do artigo, precisam aprovar que o artigo seja publicado, avaliando para isso seu mérito científico. Publicações em livros, apresentações em congressos, ou qualquer outra forma serão ignorados (e criacionistas tem a tendência de aumentar essas listas com esse tipo de publicação), porque não passam por esse processo e, portanto, são menos confiáveis (e não são utilizados como fonte primária de conhecimento dentro da ciência). Este é o item mais importante dos três, e qualquer artigo que falhar neste item não será sequer analisado mais a fundo – o artigo PRECISA ser de fato um artigo, e estar publicado em um periódico internacional que promova uma revisão por pares na qual nós possamos confiar.
  2. Não possuir erros metodológicos relevantes – ou seja, se seus modelos representam aquilo que querem representar, se as conclusões são sustentadas pelos dados e consistentes com estudos anteriores (ou capazes de demonstrar que os estudos anteriores estavam errados). Além disso, sua conclusão deve ser sustentada pelos seus dados. Ou seja, este item avalia se o artigo em si é cientificamente válido.
  3. Prover evidências positivas em sustentação do Design Inteligente/Criacionismo, ou tentar de fato e de forma clara dar sustentação à essa hipótese (Ou seja, não basta o estudo concluir que a evolução está errada. O Criacionismo não é a única alternativa à evolução, e não se torna a resposta padrão imediata caso a evolução um dia caia). Enquanto o item 2 avalia a validade do artigo em si, o Item 3 avalia a validade de usar aquele artigo como uma evidência da validade da hipótese do Design Inteligente enquanto teoria científica. É importante ressaltar que o Item 3 não é uma crítica necessariamente ao artigo em si, mas sim à sua inclusão na lista pelo Discovery Institute.

Será que eles são mesmo válidos? Será que eles dão mesmo sustentação ao Criacionismo/Design Inteligente? Vamos ver!

Esta é a lista completa dos artigos que me foi passada; abaixo, deixaremos o link para cada uma das partes, conforme a série for progredindo.

Parte 2 – Stephen Meyer

Parte 3 – Michael Behe

Parte 4 – Douglas Axe

Parte 5 – William Dembski


Stephen C. Meyer, “The origin of biological information and the higher taxonomic categories,” Proceedings of the Biological Society of Washington, Vol. 117(2):213-239 (2004) (HTML).

Michael J. Behe, “Experimental Evolution, Loss-of-Function Mutations, and ‘The First Rule of Adaptive Evolution,’” The Quarterly Review of Biology, Vol. 85(4):1-27 (December 2010).

Douglas D. Axe, “Estimating the Prevalence of Protein Sequences Adopting Functional Enzyme Folds,” Journal of Molecular Biology, Vol. 341:1295–1315 (2004).

Michael Behe and David W. Snoke, “Simulating evolution by gene duplication of protein features that require multiple amino acid residues,” Protein Science, Vol. 13 (2004).

William A. Dembski and Robert J. Marks II, “The Search for a Search: Measuring the Information Cost of Higher Level Search,” Journal of Advanced Computational Intelligence and Intelligent Informatics, Vol. 14 (5):475-486 (2010).

Ann K. Gauger and Douglas D. Axe, “The Evolutionary Accessibility of New Enzyme Functions: A Case Study from the Biotin Pathway,” BIO-Complexity, Vol. 2011(1) (2011).

Ann K. Gauger, Stephanie Ebnet, Pamela F. Fahey, and Ralph Seelke, “Reductive Evolution Can Prevent Populations from Taking Simple Adaptive Paths to High Fitness,” BIO-Complexity, Vol. 2010 (2) (2010).

Vladimir I. shCherbak and Maxim A. Makukov, “The ‘Wow! Signal’ of the terrestrial genetic code,” Icarus, Vol. 224 (1): 228-242 (May, 2013).

Joseph A. Kuhn, “Dissecting Darwinism,” Baylor University Medical Center Proceedings, Vol. 25(1): 41-47 (2012).

Winston Ewert, William A. Dembski, and Robert J. Marks II, “Evolutionary Synthesis of Nand Logic: Dissecting a Digital Organism,” Proceedings of the 2009 IEEE International Conference on Systems, Man, and Cybernetics, pp. 3047-3053 (October, 2009).

Douglas D. Axe, Brendan W. Dixon, Philip Lu, “Stylus: A System for Evolutionary Experimentation Based on a Protein/Proteome Model with Non-Arbitrary Functional Constraints,” PLoS One, Vol. 3(6):e2246 (June 2008).

Kirk K. Durston, David K. Y. Chiu, David L. Abel, Jack T. Trevors, “Measuring the functional sequence complexity of proteins,” Theoretical Biology and Medical Modelling, Vol. 4:47 (2007).

David L. Abel and Jack T. Trevors, “Self-organization vs. self-ordering events in life-origin models,” Physics of Life Reviews, Vol. 3:211–228 (2006).

Frank J. Tipler, “Intelligent Life in Cosmology,” International Journal of Astrobiology, Vol. 2(2): 141-148 (2003).

Michael J. Denton, Craig J. Marshall, and Michael Legge, “The Protein Folds as Platonic Forms: New Support for the pre-Darwinian Conception of Evolution by Natural Law,” Journal of Theoretical Biology, Vol. 219: 325-342 (2002).

Stanley L. Jaki, “Teaching of Transcendence in Physics,” American Journal of Physics, Vol. 55(10):884-888 (October 1987).

Granville Sewell, “Postscript,” in Analysis of a Finite Element Method: PDE/PROTRAN (New York: Springer Verlag, 1985).

A.C. McIntosh, “Evidence of design in bird feathers and avian respiration,” International Journal of Design & Nature and Ecodynamics, Vol. 4(2):154–169 (2009).

Richard v. Sternberg, “DNA Codes and Information: Formal Structures and Relational Causes,” Acta Biotheoretica, Vol. 56(3):205-232 (September, 2008).

Wolf-Ekkehard Lönnig and Heinz Saedler, “Chromosome Rearrangement and Transposable Elements,” Annual Review of Genetics, Vol. 36:389–410 (2002).

Douglas D. Axe, “Extreme Functional Sensitivity to Conservative Amino Acid Changes on Enzyme Exteriors,” Journal of Molecular Biology, Vol. 301:585-595 (2000).

William A. Dembski, The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities (Cambridge: Cambridge University Press, 1998).

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