Analisando as Falhas de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 5 – William Dembski

Olá pessoal, sejam bem-vindos de volta à nossa série, onde analisamos artigos científicos que supostamente dão sustentação ao Criacionismo e avaliamos sua validade científica, seus erros metodológicos, e verificamos se existe uma sustentação empírica à ideia do Criacionismo (ou pelo menos uma dúvida válida à evolução). Veja o começo e introdução dessa série AQUI

Hoje valos avaliar dois artigos de autoria de William Dembski, o último dos “grandes nomes do criacionismo” que ainda nos falta avaliar.

William Dembski é um matemático, filósofo e teólogo. Os últimos dois que analisamos, Douglas Axe e Michael Behe, tinham qualificações razoáveis para lidar com biologia evolutiva; Dembski não o tem. Seria como se eu, Biomédico, quisesse publicar artigos refutando a Teoria do Big Bang da Física. Simplesmente não é um assunto que eu tenha gabarito para discutir, e adquirir esse gabarito exigiria anos de estudos intensivos e dedicação exclusiva a esse tópico.

William Dembski foi por muitos anos membro do Discovery Institute e uma figura central no movimento criacionista/DI. Digo “foi” porque em 23 de Setembro Dembski anunciou sua aposentadoria do movimento criacionista/DI. Mas isso, naturalmente, não apaga seu trabalho pregresso.

William Dembski se envolveu em diversos escândalos e controvérsias ao longo dos anos. Gostaria de realçar uma, porque ela demonstra claramente como movimentos criacionistas operam: na base do medo. Dembski operava como professor na Southwestern Baptist Theological Seminary na época (idos de 2009~2010) que publicou seu livro The End of Christianity. Nesse livro, Dembski fez duas declarações que botou a comunidade criacionista em polvorosa: A primeira, de que era possível conciliar uma interpretação literal da bíblia com o consenso científico de que o universo possui 4,5 bilhões de anos. A segunda, e mais “grave”, foi de que talvez o Grande Dilúvio narrado na Bíblia tenha sido um fenômeno local, e não global. (Vale ressaltar que sabemos muito bem que o dilúvio global é fisicamente impossível e que a própria Arca (e o ato de reunir todos os animais do mundo nela) também o são).

Quando a cúpula do Southwest Seminary descobriu isso, convocaram Dembski para uma reunião onde ele “rapidamente admitiu” (leia-se: Foi pressionado a dizer) que estava errado na sua afirmação sobre o dilúvio. Praticamente uma insquisição moderna, com sua própria pena – o presidente do Southwest Seminary, Paige Patterson, declarou: “Se eu tivesse qualquer suspeita de que o Dr. Dembski estava realmente negando a absoluta confiabilidade da Bíblia então esse teria sido, naturalmente, o fim de sua relação com nossa escola”.

Percebam que a ciência não age assim. Ela critica ferrenhamente, sim, mas nenhum dos Criacionistas abordados nessa série perderam seus empregos em suas universidades devido à sua postura, por mais incorreta e anticientífica que fossem. Não existe dogmatismo na ciência (Lembrem-se: Criticar alguém por insistir em uma postura demonstradamente errada não é dogmatismo); todo argumento é considerado desde que possua embasamento empírico (ou seja, evidências). Por fim, Dembski também já se envolveu com denúncias de plágio de material da Harvard.

Dembski é famoso pela sua defesa ao argumento da Complexidade Especificada. Já mostramos que esse conceito é falso e falho na Parte 2, mas copio novamente o parágrafo aqui: A Complexidade Especificada não possui sustentação. Aqui vocês podem ler uma crítica muito bem formulada à complexidade especificada. A própria página da wikipedia, bem como a da RationalWiki, expõe de forma exemplar as falhas deste argumento. E também este artigo da Scientific American que eu traduzi para o Universo Racionalista, no item 15, refuta de maneira didática a Complexidade Especificada.

Por fim, quero deixar aqui um documento do caso Kitzmiller, que já falamos várias vezes aqui, o caso que impediu o criacionismo de ser ensinado em escolas nos EUA. Esse documento é uma expert analysis conduzida por Jeffrey Shallit. Gostaria que atentassem para os títulos de algumas conclusões que Shallit chega: “Dembski não é um cientista” (O único ponto contestável dessa análise é que Shallit não considera matemática uma ciência. Francamente, essa é uma controvérsia que eu não estou preparado para abordar nesse momento), “Dembski não é um matemático renomado”, “O trabalho de Dembski é extensivamente criticado na literatura, mas ele nunca responde”. A análise chega a chamar Dembski de “pseudomatemático”.

Pois bem, com essa introdução estabelecida, vamos ver o que esse matemático tem a dizer sobre biologia.

William A. Dembski, The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities (Cambridge: Cambridge University Press, 1998)

Olha só que coisa fantástica – não é um artigo revisado por pares, e sim um livro! Ele está marcado na lista de publicações do Discovery Institute que diz conter “Uma seleção das publicações científicas revisadas publicados em periódicos científicos, actas de conferências, ou antologias acadêmicas”. O Item 1 da nossa Lista de Critérios estabelecidos lá na introdução da série exigia que todas as publicações abordadas aqui fossem artigos científicos, por um motivo: porque eles passam pelo processo de Revisão por Pares, ou seja, só são publicados após serem aprovados por um grupo anônimo e independentes de cientistas que revisam o trabalho em busca de erros.

A lista da Discovery diz só conter trabalhos revisados por pares, então fiquei curioso do porque um livro estava ali. Quer dizer, a explicação real é bem óbvia: Foi colocado para fazer a lista parecer maior e mais crível do que é de fato, prática comum em círculos criacionistas (como já demonstramos com os currículos inflados de alguns dos criacionistas abordados até agora). A explicação oficial, porém, é outra: Dembski afirma que esse livro foi sim revisado por pares como parte de uma coleção publicado pela editora da Cambridge University.

A cultura de Revisão por Pares de livros não é tão comum quando a cultura de revisão em artigos – como disse Shallit na análise que colocamos acima, “manuscritos de livros não costumam passar pelo mesmo rigor de revisão que artigos de pesquisa passam… não é incomum que um artigo de 10 páginas receba 5 páginas de comentários [do revisor], ao passo que um livro de centenas de páginas recebe mais ou menos o mesmo volume de comentários”. Além disso, Mark Isaak afirma que o livro de Dembski foi revisado por filósofos, e não por biólogos – ou seja, efetivamente ele não passou por uma revisão critica por pares especialistas em sua área. Além disso, é difícil se certificar que essa revisão realmente aconteceu, que ela foi criteriosa e, mais importante que ela era proibitiva para a publicação da obra caso fosse negativa (como é no caso do artigo científico). Esse último item é o mais importante – artigos científicos, como já mencionamos, são excepcionalmente confiáveis porque, se os revisores não aprovarem, ele não é publicado, o que evita (na maior parte do tempo) que besteiras absurdas sejam publicadas.

Não vou perder tempo com o livro – deixamos bem claro no começo da série que o padrão esperado para evidências nessa série é artigo científico, publicado em periódico legítimo, de relevância, e revisado por pares.

Veredito: Publicação não pode comprovar que passou por uma revisão crítica por especialistas na área e, portanto, não tem validade científica. Violou o item 1 da nossa lista de critérios.

William A. Dembski and Robert J. Marks II, “The Search for a Search: Measuring the Information Cost of Higher Level Search,” Journal of Advanced Computational Intelligence and Intelligent Informatics, Vol. 14 (5):475-486 (2010).

Agora temos um artigo publicado em periódico de fato.

O artigo é sobre algorítimos de busca e teoremas matemáticos, longe de ser um assunto facilmente acessível, e no qual sou completamente leigo. Ainda assim, com ajuda dessa crítica da Rational Wiki, essa análise do Skepitcal Science (Que inclui todos os artigos que estamos abordando nessa série em tópicos curtos) e essa crítica do DiEBlog. Basicamente, a ideia do artigo é demonstrar que a busca de novas informações seria muito difícil “sem assistência”. O artigo em si, como sempre, sequer menciona o criacionismo/DI ou mesmo fala sobre evolução – se trata puramente de ciência da informação, e de algorítimos de busca. O trabalho se apoia no chamado “No Free Lunch Theorem” (“Teorema do Sem Almoço Grátis”, abreviado como NFLT) que, à grosso modo, diz que, para todas as buscas, um método de busca não é “melhor” do que qualquer outro, ou melhor do que uma busca aleatória, às cegas. O criador do NFLT, David Wolpert, publicou um texto uma vez rejeitando a ideia que seu teorema dá suporte ao Criacionismo/DI, como insiste Dembski.

A mais completa refutação do paper certamente é a da RationalWiki (acima), que geralmente é a fonte que as outras citam. Ela foi escrita por Deitmar Eben (Pelo nome eu suspeito que ele seja o dono do DiEBlog, mas não consegui confirmar isso em minha pesquisa). Ele apresenta críticas matemáticas contundentes à vários pontos do artigo, e formula uma refutação através de um jogo de “ache a ervilha no copo”. Eu faria um desserviço tentando reproduzí-la aqui, então sugiro que deem uma olhada no artigo original, caso entendam de matemática e queiram a demonstração. Caso não queira se dar ao trabalho, a versão curta da história é que Eben demonstrou uma situação onde o teorema de Dembski e seu co-autor, Robert J. Marks, não funciona, o que o invalida. Também, segundo esse texto do ScienceBlogs, há problemas nas citações – basicamente, os artigos que Dembski cita não dizem o que ele quer que eles digam.

Em 2015, o DiEBlog publicou outra refutação a esse mesmo artigo, novamente com o jogo da ervilha no copo, mas com algumas modificações, demonstrando de forma um pouco mais didática que o teorema não funciona.

A resposta de Dembski a essa refutação foi lamentável: Ameaçou processar a RationalWiki sob alegações de quebra de copyright (Veja o texto do ScienceBlogs acima, que fala disso).

Veredito: É complicado eu bater o martelo nessa já que é um debate entre dois matemáticos em pé de igualdade – quem diabos sou eu para dizer que o teorema de Dembski está incorreto, sendo que eu mal consigo entender a discussão? Ele não parece estar – as duas demonstrações são bem enfáticas – mas eu não poderia, de forma honesta, dizer isso (Convido nossos leitores matemáticos ou que tenham conhecimento nas áreas mencionadas à comentarem!).

Mas eu posso bater o martelo quanto à relevância desse artigo como um desafio à evolução e suporte ao criacionismo e, nesse caso, um teorema aparentemente falho não é evidência o suficiente para duvidar de uma explicação tão abrangente quanto à da Evolução por Seleção Natural. Mesmo SE o teorema de Dembski estivesse correto, seria necessário extrapolar isso para dados biológicos, e então arranjar uma explicação alternativa, embasada em evidências, que abrangesse tudo o que a evolução explica E essa aparente inconsistência. Muito provavelmente isso ocorreria aperfeiçoando a teoria da evolução, e não substituindo-a – é sempre importante lembrar que a teoria de Darwin já encontrou obstáculos e ela já foi sendo significativamente alterada (ou seja, aperfeiçoada) ao longo das décadas, incorporando novos elementos. E isso ocorre porque ela é a que melhor se conforma à realidade, porque, e podemos afirmar isso com muita segurança, ela É a realidade – nós apenas descobrimos novos detalhes que estavam escondidos nela. O Criacionismo não possui o embasamento empírico necessário para se colocar como uma alternativa à altura.

Mesmo se a evolução fosse derrubada amanhã, isso não faria o Criacionismo tornar-se correto.

Portanto, este artigo aparentemente viola o item 2 da nossa lista de critérios, e definitivamente viola o item 3, pois não fornece evidências da validade do criacionismo de forma direta.

E é isso por essa semana pessoal! Abraços e até semana que vem. Até lá!

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