Analisando os Erros de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 6 – O resto, Parte 1

Olá queridos leitores, espero que tenham tido um fantástico dia. Hora de mais uma vez nos deitarmos sobre os supostos artigos científicos criacionistas, e explorar se eles são válidos para sustentar a ideia do Criacionismo/”Design Inteligente” como uma explicação alternativa e equivalente à Evolução por Seleção Natural para o surgimento da diversidade da vida na Terra. Leia a introdução da série CLICANDO AQUI.

Até agora, exploramos os principais nomes do movimento criacionista americano, e expomos as falhas nos seus artigos. Agora, iremos analisar os artigos restantes – que na verdade são maioria – e ver se eles realmente tem a ver com o Criacionismo, se eles não possuem falhas gritantes, e se eles sequer tocam no assunto. Iremos ir mais rápido agora, aprofundando-se apenas em artigos que apresentem algum mérito.

1 – Ann K. Gauger and Douglas D. Axe, “The Evolutionary Accessibility of New Enzyme Functions: A Case Study from the Biotin Pathway,” BIO-Complexity, Vol. 2011(1) (2011)

2 – Ann K. Gauger, Stephanie Ebnet, Pamela F. Fahey, and Ralph Seelke, “Reductive Evolution Can Prevent Populations from Taking Simple Adaptive Paths to High Fitness,” BIO-Complexity, Vol. 2010 (2) (2010)

Minha ideia original para essa Parte 6 era focar nesses dois artigos apenas, já que a Dra. Ann é a última pessoa com mais de um artigo na lista, mas percebi que, se eu fizesse isso, a Parte 6 seria curtíssima. Porque? Porque ambos os artigos apresentam uma falha gravíssima.

Mas antes, vamos falar um pouco sobre a Dra. Ann. Ann Gauger é uma membra do (adivinha!) Discovery Instute, atuando como Director of Science Communicator – sendo “responsável por comunicar ao público as evidências do Design Inteligente” – e pesquisadora no Biologic Institute, o instituto de pesquisa de Douglas Axe, como discutimos na Parte 4 dessa série. Ou seja, temos aqui novamente o problema científico de “Partir de uma conclusão pré-concebida e tentar prová-la”.

Dito isso, a Dra. Ann tem um bom currículo, formação aparentemente relevante – só consegui achar a informação de que seu PhD foi obtido no departamento de Zoologia da University of Washington mas, o que indica que ao menos ela está inseirida nas ciências biológicas. Ela também já publicou artigos na Nature e outros bons periódicos – mas não artigos sobre Design Inteligente, claro. Ela é criacionista declarada. Deixo aqui um texto do blog do Dr. Larry Moran, da University of Toronto, mostrando erros lógicos da Dra. Ann e de suas ideias criacionistas.

Bom, qual o problema grave dos dois artigos aqui apontados? O periódico publicado: BIO-Complexity.

O BIO-Complexity é provavelmente uma das atitudes mais ardilosas do Discovery Instute. O periódico é uma publicação do Biologic Institute que, por sua vez, é do Discovery, e seu objetivo é “ser o principal local para testar a validade do Design Inteligente como uma explicação crível para a vida”.

Ou seja, é um membro do Discovery Instute publicando no periódico do Discovery Instute. Como explicamos na introdução e em outras partes dessa série, um dos pilares da ciência é a Revisão por Pares – ou seja, o seu trabalho, antes de ser publicado, será revisado por um grupo de cientistas anônimos e independentes que também são especialistas na área, e o parecer desses revisores dirá se o seu artigo tem mérito para ser publicado naquele periódico ou não. A negativa proíbe a publicação, forçando o cientista a procurar outro periódico (geralmente menos prestigioso ou interessante).

O problema da BIO-Complexity é que não temos como confiar no seu sistema de revisão. Sim, pode ser que os trabalhos passando por ela seja revisados seriamente por cientistas legítimos, mas é igualmente possível que qualquer trabalho que sustente o criacionismo seja aprovado. É particularmente preocupante que a publicação aceite artigos dos cientistas ligados ao Discovery, já que há um claro conflito de interesses. Além disso, novamente – é preocupante fazer seu trabalho na intenção de provar um ponto. Essa pode ser sua intenção (Por exemplo, alguém que testa um fármaco obviamente quer que ele funcione), mas não deve ser o princípio norteador da pesquisa e, principalmente, da interpretação dos resultados. Uma boa ciência conclui o que as evidências demonstram, invés de tentar encaixar os resultados na explicação pré-determinada. Se existisse mesmo uma controvérsia – ela não existe – e a BIO-Complexity fosse mesmo um periódico para “testar a validade” do Design Inteligente, seria de se esperar que 1 – O periódico teria relevância, coisa que ele não tem (Sequer possui fator de impacto calculado e publica poucos artigos por ano) e 2 – Haveriam artigos contra e à favor da Evolução no periódico. Até onde é do meu conhecimento, isso não ocorre, e a BIO-Complexity é, para todos os efeitos, um periódico criacionista. Obviamente há um conflito de interesses imenso em pesquisadores da Discovery publicando no periódico da Discovery.

Antes que alguém tenta fazer uma falsa equivalência: Periódicos que se dedicam ao estudo da evolução não estão forçando uma posição, e sim dando continuidade à um fato extremamente bem-estabelecido na comunidade científica internacional. A evolução já está provada, logo é correto partir desse pressuposto, ao passo que o Criacionismo nunca passou pelo mesmo grau de validação. E lembrem-se sempre: A controvérsia não existe. Esse “debate” Criacionismo vs Evolução só existe na cabeça dos criacionistas, porque gerar uma impressão de controvérsia é a única maneira que eles tem de atingir o público leigo. Periódicos de Evolução não estão “lutando para provar que a evolução é real”, isso já foi feito 150 anos atrás. Eles estão apenas buscando entender o fenômeno factual, e aplicá-lo ao entendimento de outras áreas.

Uma publicação que não passou por uma revisão criteriosa por pares isentos, para todos os propósitos, não é uma publicação científica – é o mesmo problema de usar livros para sustentar uma ideia como cientificamente valida. Como não podemos confiar no processo de revisão da BIO-Complexity, não podemos aceitá-los como artigos revisados por pares nessa nossa análise.

Bati o olho no primeiro e ele não parece citar o Design Inteligente, apesar de ser mais categórico na negação da evolução do que a maioria dos artigos dessa lista costuma ser – afinal, é fácil falar besteira quando a revista é sua.

Veredito: Publicação em revista duvidosa, revisão por pares comprometida por um conflito de interesses claro, tornando impossível confiar na revisão. A revista também possui uma abordagem fundamentalmente errada à própria ciência, e pouco relevante dentro da ciência internacional. Assim, os textos ferem o critério 1 da nossa lista de critérios da introdução da série.

 

Vladimir I. shCherbak and Maxim A. Makukov, “The ‘Wow! Signal’ of the terrestrial genetic code,” Icarus, Vol. 224 (1): 228-242 (May, 2013).

Rapaz, por onde começar.

Acho que o nome do artigo é uma boa: O “Wow Signal” é um sinal que foi captado pelo rádio-telescópio Big Ear, parte do programa Search for Extraterrestrial Intelligence (SETI), que buscava encontrar sinais de vida inteligente fora da terra. O sinal tem origem misteriosa e nunca foi captado novamente. Quando o sinal foi impresso pelo computador, o pesquisador responsável ficou tão entusiasmado que o circulou e escreveu “Wow!” na folha, e o nome se estabeleceu. O sinal ainda é um mistério, apesar de várias explicações mundanas – como cometas – serem apontadas como possíveis.

A ideia desse paper, de Vladmir e Maxim, é provar que existe um sinal alienígena similar no nosso DNA.

Naturalmente, quando o artigo saiu, a mídia leiga e irresponsável saiu espalhando manchetes como “Sinal alienígena encontrado no nosso DNA!” e similares. Claro que o movimento criacionista não iria deixar passar essa oportunidade, e abraçou o artigo como uma prova de um sinal inteligente no DNA. Mas seria real?

O artigo foi publicado na Icarus, um periódico bastante respeitado em Astronomia e Geologia. Importante ressaltar: Não é um periódico de biologia. E talvez, se eles tivessem consultado um biólogo antes de publicar esse artigo, o desastre poderia ter sido evitado.

O artigo em si nada mais é do que alguns truques numerológicos, na tentativa de encontrar padrões em cima do número 37. Essa refutação aqui acusa o artigo de usar o “Chewbacca Defense”, um termo legal americano que basicamente significa “tentar confundir a audiência com dados sem sentido para disfarçar as falhas do seu argumento”.

Seres humanos possuem uma tendência bem-documentada em encontrar padrões onde não existem. Tem até um nome, Apophenia, e isso se reflete nesse artigo. Os pesquisadores estabelecem dois critérios para afirmar que uma informação do código genético seria de origem inteligente: 1 – Ela precisa ser estatisticamente significante (óbvio) e 2 – Ela não pode ser explicada por fenômenos naturais. Ele então chega ao suposto “Wow Signal” genético com alguns truques de organização que, como não causam nenhuma alteração funcional e não faria sentido existir, a capacidade de organizá-los daquela forma é prova de uma origem inteligente.

Como o texto acima argumenta, basta demonstrarmos uma explicação natural para que o argumento caia por terra. É de conhecimento comum que o código genético apresenta padrões – o código é degenerado, ou seja, existem mais trincas de códons do que aminoácidos codificados (portanto, existe redundância no DNA). Assim, vários aminoácidos são codificados apenas pelas duas primeiras letras da trinca. Mais importante: O próprio código não é aleatório. Se a primeira letra for T, o aminoácido será derivado do Piruvato. Se a segunda letra for A, então o aminoácido é hidrofílico.

Ou seja, existe uma correlação entre o código e a função do aminoácido que ele codifica! Logo, há uma origem natural para esse código. A história evolutiva proposta é que pares de nucleotídeos em organismos ancestrais funcionavam como proto-enzimas antes de serem incorporados ao DNA como codificadores de informação. Ou seja, os nucleotídeos já tinham funções semelhantes às que eles codificam hoje e, naturalmente, isso traz a emergência de padrões naturais.

É um pouco confuso, eu sei, mas o ponto é: O artigo é numerologia barata, e ignora conhecimento biológico.

E honestamente, não acho que os pesquisadores foram desonestos. Nenhum deles é associado ao movimento do Design Inteligente, pelo que observei – o Dr. Vladmir é bastante obcecado com provar origens alienígenas da vida na terra, mas não tem um caráter religioso. Mesmo assim, os dados não apontam para as conclusões que ele tenta sustentar, e o surgimento dos padrões que ele observa se dão devido à própria metodologia do trabalho e não da existência de padrões inteligentes. Se você quer encontrar um padrão, você vai encontrar um padrão. A Evolução nos tornou bons nisso; essa capacidade era essencial para a sobrevivência dos nossos ancestrais.

Deixo mais dois textos sobre o assunto para leitura complementar AQUI e AQUI

Veredito: O artigo usa de arranjos numéricos bizarros e sem sentido para tentar trazer um padrão. Além disso o artigo nunca menciona o Design Inteligente. O artigo também ignora conhecimento biológico comum. Não bota em cheque a validade da evolução, a metodologia é muito falha e as conclusões muito absurdas para tal. Viola os itens 2 e, principalmente, 3 da nossa lista de critérios.

 

Joseph A. Kuhn, “Dissecting Darwinism,” Baylor University Medical Center Proceedings, Vol. 25(1): 41-47 (2012).

Como sempre, contarei com apoio, dessa vez com esse texto de um professor do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Antes, porém, quero ressaltar a estranheza de publicar uma refutação à evolução em um periódico médico. A Medicina certamente está mais próxima da biologia do que a Astronomia do artigo explicado acima, mas mesmo assim não é na medicina que se encontra o cerne da Teoria da Evolução, e sim na Biologia.

O artigo abre já tentando se defender dessa acusação, contando como um cirurgião conseguiu identificar similaridades musculares em diversas espécies e propôr uma formação gradual através de mutações, 70 anos antes de Darwin. O Dr. Joseph Kuhn está absolutamente correto nesse sentido – a medicina pode fornecer evidências valiosíssimas, e um olhar atento pode ser capaz de reuni-las e concluir algo a respeito delas. Porém, tentar rejeitar à evolução é rejeitar um século de corroborações e evidências. Lembrem-se: A evolução é o fenômeno, não a explicação. “A evolução ocorreu” tem o mesmo valor de verdade de “o céu é azul”. É um fenômeno factual e observável. A explicação desse fenômeno (“A evolução ocorreu através da seleção natural de características que aumentam a adaptação de um organismo ao seu ambiente”) pode e deve ser questionada (mas jpa sobreviveu à 150 anos de questionamentos). O fenômeno é sustentado por observação direta e indireta, as mais fortes sendo o registro fóssil e a genética.

Ele então faz uma recapitulação do caso Kitzmiller (bastante parcial, devo dizer) e levanta as três supostas “fraquezas do darwinismo”

1- Limitações dos dados da origem química da vida em explicar o surgimento do DNA

2- Limitações de mutação e seleção natural em explicar a complexidade irredutível da célula

3 – Limitações de dados de espécies transicionais em explicar a multitude de mudanças envolvidas na transição.

Ou seja, nada de novo sob o sol. Os mesmos argumentos velhos e batidos, repetidos infinitas vezes. O primeiro item se apoia na complexidade especificada e o segundo, na irredutível, duas falácias que já refutei anteriormente nessa série. (Vejam as Partes 1, 3 e 5)

De forma geral, o artigo é repleto de erros, e cheio de citações à outros criacionistas. E isso serve como um ótimo exemplo do porque revistas como a BIO-Complexity existem, ou porque criacionistas publicam baboseiras em outros periódicos sem negar a evolução. A intenção é criar uma massa de artigos que possam ser citados em artigos futuros, independente de serem reais ou não. Mesmo os mais assíduos revisores não costumam ler todas as referências que um trabalho cita, e assim, afirmações como “Segundo [trabalho incorreto de cientista criacionista], proteínas não poderiam ter surgido através de mecanismos darwinistas” passam como verdade, mesmo não sendo. Além disso, Kuhn ignora evidências conhecidas (que iriam contra a sua narrativa) e comete erros biológicos.

Ah, e como sempre, o artigo sequer cita o Design Inteligente/Criacionismo.

Enfim, voltando à resposta do nosso professor de Chicago, ele aponta que:

1 – O artigo tenta afirmar que proteínas e DNA são ambos essenciais à vida e um não pode existir sem o outro, ignorando cenários co-evolucionários (Ou seja, onde ambos evoluíram e se desenvolveram gradualmente, juntos) e apenas menciona, mas não desenvolve ou refuta, o papel do RNA nessa história toda. Ele conclui que a evolução não seria capaz de explicar a origem da vida porque “dependem de replicação, e não existia replicação antes da origem da vida”, ignorando o fato que a replicação é uma característica essencial para a vida e, dessa forma, teria sido selecionada em proto-organismos ancestrais. (E o fato que evolução não se trata da origem da vida e sim da evolução dessa vida após a sua origem).

2 – Complexidade irredutível é apelo à ignorância e portanto falácia, como já demonstrei diversas vezes nessa série.

3 – Basicamente Kuhn ignora ou simplesmente rejeita as diversas formas transicionais que existem entre as mais diversas espécies (Uma lista pode ser acessada AQUI). Vale a pena elaborar essa questão dos fósseis transicionais, porque esse é um argumento criacionista bastante comum: O registro fóssil JAMAIS será completo. Isso é impossível, tanto pela raridade dos fósseis quanto pelo fato que você consegue regredir infinitamente esse argumento. Vamos supôr que você tenha dois fósseis, o fóssil da Espécie 1 e o fóssil da Espécie 3. Os criacionistas exigem que você demonstre que existe uma forma transicional, a Espécie 2, entre 1 e 3, ou sua teoria é falsa. Após muito esforço, você encontra o Fóssil 2. Para os criacionistas escaparem dessa, é só exigirem agora que você mostre o fóssil da Espécie 2,5, entre a 2 e a 3. E depois a 2,75. E assim em diante. Esse argumento é desonesto porque coloca na mesa uma exigência impossível de ser cumprida. Se não existissem fósseis transicionais nenhum, o argumento teria validade; porém, já foi comprovado que essas formas transicionais existem. Colocar o achado de mais desses fósseis como uma exigência para provar a validade da evolução é ridículo.

Veredito: As mesmas besteiras de sempre. Artigo cheio de erros biológicos e ignora conhecimento pré-estabelecido. Não serve como uma crítica séria à evolução enquanto explicação para a biodiversidade da vida. Falha nos itens 2 e 3 do nossos critérios (O 2 pelos erros, o 3 pelo fato que é mais um daqueles artigos muito preocupados em derrubar a evolução e muito pouco preocupados em providenciar evidências da suposta criação).

 

Winston Ewert, William A. Dembski, and Robert J. Marks II, “Evolutionary Synthesis of Nand Logic: Dissecting a Digital Organism,” Proceedings of the 2009 IEEE International Conference on Systems, Man, and Cybernetics, pp. 3047-3053 (October, 2009).

Esse artigo tem William Dembski; porém, como eu organizei os artigos pelo primeiro autor, esse artigo acabou caindo nessa parte da série.

De qualquer forma, não sou da área do artigo, que lida com sistemas computacionais. Me falta o conhecimento técnico para dizer se há erros nesse artigo. Também não encontrei nenhuma análise dele na internet. Mas, mesmo sem ser capaz de analisar criticamente o artigo, eu tinha uma suspeita de um erro – não do artigo, mas de sua inclusão na lista da Discovery. De qualquer forma, pedi ajuda para Mateus Coelho, conhecido meu e Mestrando em Ciências da Computação, e ele me ajudou a confirmar minha suspeita: O artigo em si é bom, mas dizer que ele sustenta o Design Inteligente (Ou prejudica a Evolução) é um salto lógico.

Mas antes, vamos entender do que o artigo se trata. Ele é, basicamente, uma análise do programa Avida, o “organismo digital”. O Avida é uma plataforma de estudo da Evolução que simula um ambiente onde “organismos digitais” competem por “recursos digitais”. O artigo busca demonstrar erros no Avida, e propôr melhorias no mesmo. Segundo o Matheus, ele faz isso de forma bastante competente.

Porém, o a inclusão desse artigo na lista da Discovery parece partir do pressuposto que, se o Avida estiver errado, a Evolução também está. Isso é um erro. O Avida é inspirado na Evolução, não o contrário, e ele não tem compromisso de ser fiel ao processo biológico. É de interesse dele ser o mais fiel possível, mas falhas de um modelo não representam falhas do fato concreto. Mais importante, o Avida  é uma ferramenta de estudo da Evolução, não uma prova.

Resumindo: O artigo não tem problemas que eu possa detectar, mas usá-lo como evidência para tentar manchar a validade da evolução é um salto lógico capaz de ganhar medalha em qualquer olimpíada. Seja o artigo feito com essa intenção, ou distorcido grotescamente pelo Discovery ao incluí-lo na lista, o fato permanece – esse artigo não dá sustentação ao Design Inteligente, tampouco prejudica a credibilidade da Evolução enquanto teoria dominante da biologia.

Veredito: Artigo que busca apontar erros em um modelo de estudo de evolução. Qualquer extrapolação além disso é um salto lógico extremamente desonesto. Falha com o item 3 da nossa lista de critérios.

 

Kirk K. Durston, David K. Y. Chiu, David L. Abel, Jack T. Trevors, “Measuring the functional sequence complexity of proteins,” Theoretical Biology and Medical Modelling, Vol. 4:47 (2007).

O último paper de hoje. Os autores incluem Kirk Durston, um físico, filósofo e biofísico (Ou seja, com qualificações no mínimo questionáveis para atuar na área de evolução e biologia molecular) cujo website particular deixa bem claro suas inclinações religiosas, incluindo menções de “as impressões digitais de Deus no genoma da vida” (O que, como já vimos diversas vezes nessa série, é besteira), e o bom e velho discurso de “unir ciência e religião” (Algo completamente impossível, uma vez que a ciência é, por definição e necessidade, materialista em sua metodologia); David Ciu, que também tem contato com o movimento criacionista, já tendo feito parte da International Society for Complexity Information and Design (Sociedade Internacional da Complexidade de Informação e Design) de William Dembski; e Jack Trevors, que rejeita o rótulo de defensor do DI e se auto-declara ateu, apesar de afirmações como “Programas de computador não se escrevem sozinhos. Porque cientistas ou qualquer outra pessoa acreditam que programas genéticos se escrevem sozinhos?”, uma óbvia falsa equivalência.

Talvez o caso mais hilário, porém, seja o do autor David Abel, que ostentava como local de trabalho o “Departamento de ProtoBioCibernética e ProtoBioSemiótica no Origin of Life Science Foundation (Fundação Científica da Origem da Vida). A Fundação, eventualmente descobriram, é fictícia, sendo “administrada” da casa particular do pesquisador, com uma plaquinha imprimida em papel pregada na parede como indicativo.

Extraído de Free Thought Blogs, fonte acima

Abel é conhecido por publicações de qualidade questionável, geralmente sem nenhum dado empírico de fato, apenas argumentação.

Quanto ao artigo? É apenas uma suposta metodologia para medir a complexidade funcional de uma sequência. O artigo, como sempre, sequer cita o Design Inteligente, tampouco critica diretamente a evolução – inclusive, na conclusão, eles citam que “medições de bioinformática funcional podem fornecer meios de avaliar potenciais caminhos evolutivos de efeitos como mutações” – ou seja, o próprio artigo apresenta a si mesmo como uma ferramenta evolutiva, não uma crítica à evolução e muito menos uma evidência que dê suporte ao criacionismo.

Veredito: Artigo não ataca a evolução, tampouco sustenta o DI. Demonstrou-se irrelevante a longo prazo. Falhou no item 3 da nossa lista de critérios.

Por hoje é isso pessoal. Muito obrigado e até semana que vem!

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