Uma Resposta a Ricardo Felício Sobre o Consenso Científico do Aquecimento Global

Nessa semana, vozes negacionistas do aquecimento global – e, mais especificamente, do papel do homem no aquecimento global – tem ganho espaço na mídia digital, sobretudo na figura do professor da USP Ricardo Felício, re-acendendo no meio leigo (mas não no acadêmico) a discussão sobre o aquecimento global e o papel do homem no mesmo. Assim sendo, senti a necessidade de fazer um texto rápido sobre o assunto.

Não cabe à mim, nesse momento, discorrer sobre as evidências à favor do aquecimento global. Me falta estudo na área para ser capaz de resumi-las de forma concisa e clara. Existe material na internet feita por gente mais capacitada que eu para o assunto. O que eu posso fazer, porém, é discorrer sobre um assunto que eu entendo um pouco – consenso científico, como ele funciona, e qual o seu peso.

Diversos estudos já foram realizados investigando o consenso entre cientistas do clima sobre o aquecimento global antropogênico (Que será referido daqui em diante como AGA), bem como uma revisão de dados da literatura. No gráfico abaixo, temos alguns desses diversos estudos de consenso, mostrando a porcentagem de concordância que eles encontraram.

Estudos sobre a concordância científica do aquecimento global antropogênico

Oreskes 2004, um dos mais famosos, publicado na Science, uma das publicações de maior credibilidade no mundo (E que, portanto, só aceita trabalhos sólidos e de confiança), fez uma revisão de artigos sobre o tema “Mudança Climática Global”, e não encontrou nenhum se posicionando contra o AGA. Doran 2009, por sua vez, realizou uma consulta à mais de 3 mil pesquisadores, perguntando-os se eles acreditavam “Que a atividade humana seja um fator significante contribuindo para o aumento das médias de temperaturas globais”. Entre todos os cientistas consultados, 82% disseram que sim – porém, quando se excluíam aqueles que não eram pesquisadores da área de climatologia, e aqueles que eram mas que não publicavam com frequência na área, o consenso subia para 97%. Ou seja, eram os não-especialistas e os especialistas improdutivos que estavam puxando a média para baixo.

Andregg 2010 também avaliou pesquisadores da área que haviam assinado publicamente manifestações contra ou a favor do consenso. Novamente, 97% dos pesquisadores haviam se posicionado favoravelmente ao consenso do AGA. Além disso, Andregg e sua equipe descobriram que a quantidade de publicações média por cientista do grupo que se manifestava contra o AGA era de menos da metade do número daqueles que eram favoráveis ao AGA. Ou seja, os pesquisadores pró-AGA eram, de forma geral, mais produtivos e engajados na pesquisa do que os anti-AGA.

Cook 2013 chegou numa figura semelhante – 97% de artigos que se posicionam à respeito da questão concordam com o AGA, dentro da literatura. Os pesquisadores desses papers foram contactados e solicitaram que eles mesmos confirmassem se seu artigo era à favor ou contra o aquecimento (Invés de ficar apenas com a análise de Cook e sua equipe). O resultado? 97% à favor.

E esses 3% contra? Cook retornou em 2016 para se debruçar contra eles. O que ele descobriu é que a maioria destes sofre de erros metodológicos – ignoram evidências presentes em outros estudos ou às vezes nos próprios, possuem informações faltantes para sustentarem suas conclusões, entre outros.

Não existem dúvidas – a comunidade científica internacional está convencida de que o Aquecimento Global Antropogênico é uma realidade.

E porque isso é importante? Porque, via de regra, o Consenso Científico nos dá o fato sobre um determinado assunto. É importante entender que algo não é verdade porque é consenso científico; é o contrário! Algo se torna Consenso Científico porque é verdade, por ter um acúmulo de evidências tão opressivo que se torna impossível para os cientistas da área – criaturas céticas e desconfiadas por natureza e necessidade – negar que aquele fato é real.

Dizer que o aquecimento global antropogênico é consenso entre 97% dos pesquisadores significa afirmar que as evidências até agora reunidas, coletadas e analisadas convenceram 97% da comunidade científica. Negacionistas são livres para tentar mudar esse consenso, trazendo novas evidências que o desafiem – isso é saudável, e é como a ciência funciona. Porém, isso é feito dentro da ciência, publicando artigos em periódicos científicos internacionais de relevância. Estudos sólidos geram artigos sólidos, que conseguem ser publicados nos melhores periódicos; ao mesmo tempo, estudos mais fracos são barrados desse grupo de revistas de ponta devido às suas falhas (Sejam metodológicas, lógicas, ou filosóficas/científicas – como exagerar as conclusões), e acabam sendo publicados em revistas mais fracas, de menor credibilidade e relevância.

O Consenso Científico está aberto à mudanças – a ciência é dotada de um mecanismo de auto-correção, e é isso que faz dela uma ferramenta tão valiosa. O Consenso Científico não é um ponto de encerramento, e sim um ponto de partida – ele indica um conhecimento que virtualmente todos os pesquisadores concordam ser verdadeiro e sustentado por toneladas de evidências podendo, portanto, servir de base para pesquisas futuras. Mas mesmo ele pode ser desafiado. Porém, essa mudança só ocorre se os estudos subsequentes forem de qualidade e mostrarem de maneira sólida que o que se pensava antes estava errado. Façam isso, e vão mudar o consenso científico. Convençam a academia, e um Nobel os espera. Mas não tentem convencer o público leigo. Isso é tentar burlar o caminho natural da construção do conhecimento. Convençam a ciência, e a ciência convencerá o público.

Deixo aqui como fonte esse texto do Skepitcal Science, que ajudou bastante com uma listagem e explicação compreensiva dos estudos que abordei acima.

sobre-o-autor-lucas-rosa

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