O que é o câncer? Por que é tão difícil curá-lo?

O que é o câncer?

O câncer é uma das doenças mais conhecidas e temidas da atualidade. Longe de ser um problema singular, ele é na verdade o nome dado a mais de 100 tipos diferentes de doenças que apresentam como aspecto em comum a malignidade celular. Para que sejam consideradas cancerosas, um conjunto de células deve apresentar características como:

  • Desdiferenciação e perda de função original;
  • Alteração e danos no material genético;
  • Mudança na razão núcleo-citoplasma;
  • Alterações metabólicas nas células, com alta proliferação celular e consumo de oxigênio e glicose;
  • Pleomorfismo – variabilidade anormal no tamanho, forma e coloração das células;
  • “Imortalidade”, ou incapacidade de sofrer a morte celular programada (apoptose) em caso de dano;
  • Capacidade das células de se espalharem pelo corpo e povoarem outros órgãos e tecidos (metástase).
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O desenvolvimento do câncer. Imagem retirada de https://www.tuasaude.com/.

Dentre os possíveis fatores que podem levar ao desenvolvimento de um câncer, estão:

  • Exposição a substâncias químicas consideradas carcinogênicas, tais como nitrosaminas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, dioxinas, benzeno, aminas aromáticas, asbesto, gás mostarda, alguns azocompostos, certas substâncias inorgânicas, dentre outros. Muitos desses compostos são encontrados no tabaco, em alimentos excessivamente torrados ou defumados e/ou em compostos utilizados a nível industrial.
  • Certos agentes microbianos, tais como:
    • Vírus: papilomavírus humano, herpesvírus, vírus da Hepatite B e C, vírus de Epstein-Barr, HIV.
    • Bactérias: Helicobacter pylori.
    • Parasitas: Schistosoma haematobium, Opisthorchis viverrini, Clonorchis sinensis.
    • Fungos: gênero Aspergillus (aflatoxinas).
      Obs.: tais patógenos são capazes de causar tipos de câncer específicos. Por exemplo, o HPV é relacionado com o câncer cervical, a H. pylori com carcinoma gástrico, o S. haematobium com carcinoma de células escamosas da bexiga, etc.
  • Exposição a radiação, como raios gama ou partículas alfa.
  • Maus hábitos alimentares e obesidade.
  • Fatores genéticos e epigenéticos:
    • Predisposição genética, normalmente herdada, sendo esta mais relevante para certos tipos de câncer do que para outros. A penetrância – porcentagem de indivíduos com determinado alelo, dominante ou recessivo, que manifestarão o fenótipo associado a ele – da susceptibilidade ao câncer varia de acordo com a idade, estilo de vida do indivíduo e fatores ambientais.
    • Silenciamento de genes supressores de tumor, que controlam o ciclo celular, a morte celular programada e reparam erros no DNA.
    • Mutações, duplicações ou rearranjos cromossômicos que superativam proto-oncogenes, que podem levar a célula à proliferação descontrolada e descompasso no ciclo celular.

A etiologia do câncer é multifatorial – ou seja, estas possíveis causas não são determinantes nem agem sozinhas. A susceptibilidade genética é de grande importância, tendo alguns estudos recentes revelado que ela pode ter maior relevância do que fatores ambientais.

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Papilomavírus Humano (HPV), relacionado ao desenvolvimento de câncer de colo de útero. Imagem retirada de http://www.mulherdescomplicada.com.br/

Existem alguns tipos básicos de câncer, classificados a partir de que tipo de tecido ele se desenvolve e que células afeta. Alguns deles são:

  • Carcinoma: originado de tecido epitelial, glandular ou do trofoblasto (estrutura embrionária).
    • Adenocarcinoma: neoplasia em células epiteliais com característica secretora/glandular.
      Ex.: Melanoma, carcinoma basocelular, carcinoma de células escamosas.
  • Sarcoma: originado de células mesodérmicas e tecido conjuntivo, podendo afetar músculos, ossos, cartilagens, tecido adiposo, dentre outros.
    Ex.: angiosarcoma (revestimento interno dos vasos sanguíneos), rabdomiossarcoma (musculatura esquelética), sarcoma sinovial (tendões, ligamentos e fáscias).
  • Leucemia: câncer que afeta células sanguíneas e se origina na medula óssea.
    • Leucemia linfóide: afeta células da linhagem linfóide (linfócitos, células NK).
    • Leucemia mielóide: afeta a linhagem mielóide (granulócitos, macrófagos).
      Ex.: leucemia linfoide aguda, leucemia mieloide crônica.
  • Blastoma: afeta células precursoras, imaturas e indiferenciadas. Mais presente em crianças.
    Ex.: glioblastoma (células gliais do sistema nervoso), hepatoblastoma, meduloblastoma.
  • Linfoma: originado de células do sistema linfático.
    Ex.: Linfoma Hodgkin, Linfoma não-Hodgkin.
  • Teratoma: formado por células germinativas embrionárias, sendo encontrado nas gônadas de adultos ou na região sacrococcígea em crianças. Pode ser benigno ou maligno de acordo com o nível de diferenciação. Em tumores bem diferenciados podem ser encontrados diversos tipos de tecidos, como dentes, cabelos, glândulas sebáceas, tecido nervoso, gastrointestinal, cartilagem ou mesmo estruturas mais complexas como olhos.

Além dos danos causados pela invasão, obstrução e outros efeitos da metástase, juntamente com o câncer pode ocorrer a síndrome paraneoplásica, que se caracteriza por alterações endócrinas, neurológicas, mucocutâneas e hematológicas que podem ser detectadas em exames clínicos e laboratoriais.

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Corte histológico de melanoma maligno visto ao microscópio óptico.

Quais as principais dificuldades em se tratar e curar o câncer?

Sendo um problema complexo e multifatorial, existe uma grande dificuldade em se determinar as causas particulares de cada câncer e, principalmente, em se direcionar os tratamentos especificamente para as células cancerosas. Possuindo grande similaridade com as células saudáveis do hospedeiro, há uma complicação em achar algum tipo de fármaco que aja apenas contra as células-alvo, sem danificar ou destruir as demais. É devido a isso que a quimioterapia se torna tão agressiva ao paciente, afetando células da pele, do trato gastrointestinal, do fígado e dos rins.

Outro problema existente é a alta taxa de mutação das células cancerosas. Existe certo grau de desdiferenciação e perda de estrutura e função, e isso costuma mudar com certa velocidade devido às divisões celulares desordenadas que alteram e danificam o material genético. Um câncer nunca é homogêneo, de forma que certas partes possuem maior grau de diferenciação, ou seja, de semelhança com as células que a originaram, e outras sofreram maiores danos e possuem malignidade mais acentuada. Até em um mesmo tipo de câncer há uma considerável variedade celular. Desse modo, é difícil determinar um alvo específico para se combater a doença, e mesmo medicamentos com alta eficácia inicial podem deixar de se tornar efetivos com o tempo devido à alta mutabilidade do câncer. Ainda, em relação a tipos diferentes de câncer, é muito improvável que um tratamento único e definitivo seja encontrado, devido às particularidades e à grande variabilidade intrínseca que a doença apresenta.

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