Analisando As Falhas de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 9 – Encerramento

Se você chegou agora, não comece pelo final! Veja a introdução da nossa série AQUI

Bom, tivemos uma jornada bem longa, não é mesmo? Esses obviamente não são todos os supostos artigos científicos criacionistas – o site da Discovery tem uma lista bem maior. Muitos não são artigos, e sim trechos de livros ou resumos apresentados em congresso, colocados na lista para inflá-los artificialmente. Muitos outros são publicados em periódicos como o BioComplexity, cujos problemas já abordamos. Finalmente, uma pequena porção são artigos legítimos publicados em periódicos legítimos, mas que sofrem dos mesmos problemas que abordamos em outros artigos dessa série. Nenhum dos que analisamos sobreviveu à uma análise mais rigorosa, por apresentar alguns – ou vários – problemas

Além disso, os cientistas criacionistas, de forma geral, demonstraram baixo nível de produtividade (que é a principal métrica da avaliação da competência de um pesquisador) e, quando publicam, o fazem em periódicos pequenos ou não-indexados (ou em periódicos com Revisão por Pares comprometida, como a BIO-Complexity). É importante realçar isso: Eles são uma absoluta minoria dentro do mundo científico. Se você tem 99 cientistas falando que a conclusão A é a certa, e 1 cientista falando que a conclusão B é a certa, só faz sentido você apostar na conclusão B se o cientista em questão for significativamente melhor que os outros. No caso dos criacionistas (E de cientistas que defendem teorias pseudo ou anti-científicas de forma geral, como o negacionismo do aquecimento global), eles simplesmente, objetivamente não são.

Naturalmente, toda minha análise foi feita em cima da Lista de Critérios estipulada no começo. Assim, se minha lista de critérios for defeituosa, a análise cai por terra. Dito isso, acredito que eu tenha estipulado critérios extremamente razoáveis. Minhas únicas exigências eram que 1) O artigo seja de fato um artigo científico que passou por revisão por pares (Não um capítulo de livro, apresentação em congresso, carta editorial, artigo de opinião, artigo de divulgação, etc, pois esses veículos aceitam qualquer coisa que o autor queira escrever, diferente do artigo científico); 2) que esteja correto (ou seja, não apresente falhas metodológicas que invalidem sua conclusão) e 3) que sua inclusão na “lista de artigos que defendem o criacionismo” seja correta (Ou seja, que o artigo de fato esteja tentando promover evidências da hipótese do Design Inteligente, e não meramente apontar supostos defeitos na Evolução ou ser um artigo que não tenha nada a ver com o assunto).

Ou, em resumo, observamos os seguintes problemas de forma recorrente nos artigos analisados:

  • Periódicos cujo processo de Revisão por Pares não é confiável (Como a biocomplexity).
  • Apresentaram sérios erros de biologia ou lógica científica básica – como erros metodológicos, conclusões que não eram sustentadas pelos dados apresentavam, etc.
  • Virtualmente nenhum dos artigos apresentou argumentos à favor do Design Inteligente/Criacionismo. Nenhum dado experimental, nenhuma explicação teórica, nenhum mecanismo proposto. Invés disso, a preocupação parece ser focada em mostrar que a evolução está errada (e boa parte sequer tenta fazer isso).  Mesmo se eles conseguissem, isso não significaria que o Criacionismo seria a resposta adotada. Não os deixem enganar para que você pense que essa é uma questão com duas soluções possíveis – não é. O Criacionismo não tem suporte teórico suficiente para emergir como alternativa, mesmo que a Evolução caísse (coisa que não vai acontecer).

Se formos aplicar a exigência do item 3 à risca, apenas dois artigos realmente se posicionaram a favor do criacionismo em toda a nossa análise (O do Meyer, e aquele sobre asas de aves). Sei que já falei isso várias vezes ao longo da série, mas é importante reforçar: Mesmo se a evolução cair amanhã, o Criacionismo/DI não viraria uma teoria aceita pela comunidade científica porque faltam evidências concretas de sua validade. Falta suporte empírico.

Além disso, o Criacionismo é filosoficamente incompatível com a ciência. Um dos pilares da ciência é o Materialismo Metodológico, que é basicamente uma regra que determina que a ciência parte do pressuposto que o mundo pode ser explicado através de elementos do mundo natural e suas interações, rejeitando explicações sobrenaturais (como divindades onipotentes que atuam através de mecanismos imperceptíveis e em violação direta de várias das leis da física). Esse pressuposto não prova que o mundo É puramente naturalista – apenas determina que, dentro da ciência, precisamos partir desse ponto de partida para que o método funcione, e adota essa assumpção como base. Ele pode estar errado, o que implicaria que existe uma forma mais eficiente de gerar conhecimento válido do que a ciência. Porém, até agora, a ciência tem se provado a forma superior de geração de conhecimento que nós temos disponível, e para algo ser considerado científico, precisa obedecer ao Materialismo Metodológico. Se os Criacionistas não estão satisfeitos com essa regra, eles são livres para tentar desenvolver uma nova metodologia de geração do conhecimento, diferente da ciência, que não exija um materialismo metodológico para seu funcionamento E que seja tão ou mais eficaz que a ciência em gerar conhecimento válido.

As melhores mentes da história humana, trabalhando em conjunto, não foram capazes de fazê-lo, mas os criacionistas, naturalmente, são livres para tentar. O desenvolvimento de uma metodologia superior à ciência seria a descoberta mais revolucionária da história da espécie humana.

Agora, o que não dá, definitivamente, é chamar o Criacionismo de científico. Ele não é, por esse e muitos outros motivos.

Dentro do contexto científico, o que o movimento criacionista poderia fazer? Muita coisa, na verdade, se eles estivessem dispostos a abandonar o fundamentalismo religioso que os guia. Entendam: Ninguém é contra pessoas investigarem possíveis falhas na Evolução. De fato, todos os cientistas são absolutamente a favor disso. A Ciência avança mais quando encontra falhas em teorias pré-estabelecidas. A relatividade de Einstein nasceu de um problema na Teoria Gravitacional de Newton, uma inconsistência das leis Newtonianas em certas situações extremas (próximo da velocidade da luz, em buracos negros, etc). Assim, a teoria de Newton foi substituída e aperfeiçoada. Logicamente, a teoria de Newton ainda é válida para a maioria das situações que encontramos no dia-a-dia, então ela não foi substituída por completo; porém, é justo dizer que o rei da física hoje é a teoria de Einstein, não de Newton, porque a teoria de Einstein é Newton + Algumas coisas que Newton não tinha como saber em sua época.

Criacionistas poderiam ter empreendimentos muito mais produtivos e muito mais frutíferos se estivessem dispostos a ser honestos em suas críticas. Se algum deles realmente tem problemas com a evolução (além dos problemas religiosos), tudo bem. Vá em frente e estude a evolução, tente achar esses problemas. Se você for honesto e fizer um trabalho de qualidade, talvez você o encontre. Muitos já foram encontrados desde Darwin. Quando um desses problemas é encontrado, o pesquisador que o descobre tem a chance de corrigi-lo e, talvez, gravar seu nome pra sempre na história da ciência e ajudar a humanidade a chegar mais perto da verdade. Acredito que seja para isso que a maioria de nós faz ciência, não? É bem possível que mais problemas sejam encontrados com a teoria evolutiva, e ela precise de ainda mais adaptações. Tal qual a teoria de Newton, podemos afirmar com segurança que ela nunca vai ser substituída por completo, porque ela já comprovou sua validade em níveis muito fundamentais. Mas Darwin já foi suplantado por trabalhos posteriores – que mostraram, por exemplo, que a Deriva Genética é um mecanismo relevante para a evolução, até mais que a Seleção Natural em alguns casos. E talvez, no futuro, alguém descubra mais mecanismos, tão ou até mais relevantes. Pode ser que sim, pode ser que não. E, se sim, Criacionistas, em teoria, seriam as pessoas com maiores chances de encontrar esses mecanismos, mas APENAS se estiverem dispostos a fazer ciência de verdade, ciência honesta, invés de tentar se apossar da credibilidade científica para justificar preceitos religiosos.

Então, se algum criacionista estiver lendo isso, minha recomendação é essa: Pare de sabotar a si mesmo. Você tem uma chance real de marcar seu nome na história. Não desperdice-a fazendo ciência desonesta.

Para aqueles que querem aprender mais sobre evolução, eu recomendo as seguintes fontes:

O imenso 29+ Evidences of Macroevolution é provavelmente a mais completa coletânea de evidências da evolução. Ele é… meio denso, não vou mentir. Eu mesmo não terminei de ler. Mas é bom.

E por fim, recomendo a série Evidências da Evolução do canal Papo de Primata. Excelente produção e apresentação extremamente didática. O link (é só clicar em Evidências da Evolução nessa frase) leva ao primeiro vídeo de uma série de 5.

Obrigado a todos que acompanharam essa longa série. Abraços e até a próxima!

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