Analisando os Erros de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 8 – O Resto, Parte 3

Senhoras e senhores bem-vindos de volta à penúltima parte da nossa série de artigos científicos criacionistas, onde damos uma olhada crítica  na literatura que supostamente sustentaria o Criacionismo/Design Inteligente como uma teoria cientificamente válida. Até agora não tiveram muito sucesso, será que os quatro últimos serão os que salvarão o barco?

Antes de descobrir, se você ainda não viu, leia a introdução da série AQUI

Granville Sewell, “Postscript,” in Analysis of a Finite Element Method: PDE/PROTRAN (New York: Springer Verlag, 1985)

Adoro quando a lista faz o meu trabalho por mim.

Esse texto não é um artigo científico, e sim um livro. Como já explicamos, livros tem o seu valor, mas eles não passam pelo processo conhecido como Revisão por Pares (Peer Review), ou pelo menos, não existe uma formalização do processo que forneça uma confiança de que eles passaram por ele (Ou seja, eu posso até dizer que meu livro foi revisado por pares, mas dificilmente vou conseguir provar que essa revisão de fato existiu e foi tão criteriosa quanto deveria ser, ou se foi feita adequadamente – de forma anônima, por profissionais competentes da área, ou que a rejeição dos revisores proibiria a publicação do meu livro, como é o caso de artigos científicos). Por isso insistimos, lá no começo da série, que só seriam aceitos artigos científicos, publicados em periódicos onde a Revisão por Pares é confiável (Critério esse que derrubou os artigos da BIO-Complexity).

E pior, não é nem mesmo o livro que é citado como evidência do Design Inteligente, mas sim o Postscript do livro – ou seja, o “P.S”, o epílogo.

O autor, Granville Sewell, não é biólogo, e sim matemático (Novamente, a falta de especialização na área relevante sendo um problema comum entre negadores da evolução). Ele é conhecido pelo seu argumento de que a evolução teoricamente violaria a Segunda Lei da Termodinâmica. Vocês podem encontrar uma resposta do matemático Jason Rosenhouse à esse argumento, bem como outras distorções da matemática empregadas por criacionistas, AQUI, AQUI, e uma do físico Mark Perakh AQUI. Se querem a versão curta: é mentira.

Veredito: Postscript de um livro não é uma evidência sólida do Design Inteligente; dificilmente achados originais são publicados na forma de livros e livros não possuem o Peer Review necessário para que possamos ter confiança nesses resultados, quando o são (E eu nem sei se esse livro possui resultados originais – só achei 20 páginas dele na internet e não me pareceu ser o caso). A publicação viola o item 1 da nossa lista de critérios.

 

A.C. McIntosh, “Evidence of design in bird feathers and avian respiration,” International Journal of Design & Nature and Ecodynamics, Vol. 4(2):154–169 (2009)

Finalmente, um artigo que teve as bolas de mostrar a que veio – o autor afirma com todas as letras que o seu estudo apresenta evidência de design nas penas e respiração de aves, que não possam ser explicadas por evolução. Depois de meses lendo artigos de criacionistas que disfarçam as verdadeiras pretensões dos seus trabalhos, é bom ver alguém disposto à levantar a bandeira e fazer o meu trabalho mais fácil.

O artigo está publicado no International Journal of Design & Nature and Ecodynamics. Pode parecer à primeira vista um periódico sobre design inteligente igual o BIO-Complexity, mas não é – é um periódico devotado a como a natureza pode inspirar o design (Design no sentido tradicional, não Design Inteligente), a “explorar a rica diversidade do mundo natural”. Assim, ainda que seja um periódico bastante eclético, ficando meio que na intersecção entre biológicas e humanas, ele é um periódico sério.

Como sempre, contarei com ajuda, especificamente desse texto da Smilodon’s Retreat

Bom, o artigo já começa com um grande alerta do corpo editorial da revista:

Para nossos leitores que não lêem inglês, o primeiro parágrafo é (realces feitos por mim):

“Nota do Editor: Este artigo apresenta um paradigma diferente da visão tradicional. Ele é, na visão do periódico, um artigo exploratório que não fornece uma justificativa completa para a visão alternativa. O leitor não deve assumir que o Periódico ou os Revisores concordam com as conclusões do artigo. Ele é uma valiosa contribuição que desafia a visão convencional que sistemas podem se “designar” e se organizar por conta própria. O periódico espera que o artigo irá promover a troca de ideias neste tópico importante. Comentários são bem-vindos na forma de Cartas ao Editor”.

Ou seja, a própria revista já aponta que o artigo não faz um bom trabalho em sustentar a sua conclusão, e que os revisores e editores não necessariamente concordam com ela. É questionável o fato de periódico ter publicado algo que eles mesmos disseram que não é lá tão bom – o papel da revisão por pares é justamente barrar artigos que não valham a pena – mas isso é outra discussão.

O segundo ponto que quero levantar é o mais clássico: A qualificação do autor. A.C. McIntosh é um pesquisador bastante competente em sua área de atuação – termodinâmica e biomimética (Que é a criação de aparelhos, técnicas ou sistemas inspirado por estruturas presentes em animais ou plantas. Um exemplo clássico de biomimética é a invenção do velcro). Porém, ele não é biólogo, nem tem qualquer formação em biologia, muito menos em evolução, e sim em engenharia química.

Para um artigo de revisão, ele ignora muito da literatura existente na época, artigos estes que refutavam diretamente o que McIntosh afirma no seu artigo (Essa literatura pode ser encontrada no texto do Smilodon’s Retire, AQUI). O artigo também apresenta algumas afirmações extremamente hipócritas, por exemplo:

“Porém, nunca houve uma observação registrada disso [a evolução de uma estrutura] ocorrendo experimentalmente em laboratório (onde a informação precursora da maquinaria já não estivesse presente no embrião). Apesar de ser verdade que uma ação de design também nunca foi observada em laboratório, a interferência do design original e inteligência é uma alternativa perfeitamente viável por analogia direta com o mundo humano”.

Ou seja, uma nunca foi observada, logo é mentira; a outra também nunca foi observada, mas é válida.

Por fim, o artigo também comete outro erro clássico dos criacionistas: O erro lógico de que, se a evolução foi falsa, imediatamente comprova-se a hipótese do criacionismo.

NÃO! Mesmo se o artigo fizesse um caso convincente de que as estruturas aviárias não surgiram por evolução (e ele não faz isso), a única coisa que isso comprovaria é que essas estruturas, especificamente, não surgiram por evolução através de seleção natural! Você só poderia assumir que a resposta é Criacionismo se existissem evidências positivas para o criacionismo – coisa que não há, nesse artigo e em nenhum outro. Esse é um erro que se repetiu múltiplas vezes ao longo dessa série.

Existem diversos outros erros que poderiam ser apontados no artigo – a afirmação de que a ciência não pode detectar (e, portanto, não pode provar como falsas) inteligências que não pertençam ao mundo material, o que é correto, mas ignora que a ciência PODE identificar interferências dessa inteligência sobre o mundo material caso essas existissem, e tais interferências nunca foram detectadas, o que com certeza é uma evidência contrária ao Design Inteligente; poderia citar como boa parte do trabalho se trata apenas de descrição das estruturas, que ele tenta passar como evidência sem ser (Dizer como algo é não permite tirar conclusões sobre sua origem – apenas sobre como ela é atualmente); poderia citar os diversos exemplos de contradição, erro, afirmações grandiosas sem evidências ou mentiras no artigo, mas o texto ficaria grande demais. Novamente, convido todos a lerem mais detalhes sobre o porque esse artigo é bem fraco no texto do Smilodon’s Retreat.

Veredito: Artigo fraco que, honestamente, o periódico não deveria ter publicado. Cheio de erros tanto científicos quanto biológicos. Não traz nenhuma evidência nova – ou, de fato, qualquer evidência concreta – que sustente o Criacionismo. Viola o item 2 e 3 da lista de critérios.

 

Richard v. Sternberg, “DNA Codes and Information: Formal Structures and Relational Causes,” Acta Biotheoretica, Vol. 56(3):205-232 (September, 2008).

O nome Sternberg é familiar para alguém? Quem leu a série desde o começo talvez se lembre lá da Parte 2, onde analisei um artigo por Stephen Meyer que havia sido aprovado para publicação de forma fraudulenta. O editor envolvido – aquele que pegou para si o processo de revisão do artigo, sem ser o mais qualificado para fazê-lo, e impediu outros revisores e editores de participarem do processo, colocando em cheque a confiança do processo de peer review para aquele artigo – era justamente Richard Sternberg. Desde então, Richard Sternberg se assumiu como criacionista/DI (Na época ele apenas tinha conexões com o movimento).

Quanto o artigo, não vale a pena perder muito tempo com ele – tal qual os outros, ele é completamente teórico, sem evidências empíricas. Tanto que o periodico, a Acta Biotheorica, é dedicada à aplicações da matemática sobre a biologia e à filosofia da biologia. O artigo não é necessariamente ruim – não estou menosprezand-o por ser um artigo teórico; mas ele definitivamente não serve como prova contra a evolução ou a favor do criacionismo. E tampouco tenta – o artigo faz uma menção da evolução, e é para falar sobre modelos do processo evolutivo.

Veredito: Viola o item 3 da nossa lista de critérios.

 

Wolf-Ekkehard Lönnig and Heinz Saedler, “Chromosome Rearrangement and Transposable Elements,” Annual Review of Genetics, Vol. 36:389–410 (2002).

Finalmente, o último paper da nossa série. E ele começa com força – está publicado na Annual Review of Genetics, uma revista de fator impacto altíssimo, tornando esse de longe o artigo melhor publicado nessa série. O seu autor, o Dr. Wolf-Ekkehard Lönnig, é um geneticista de fato, pelo que pude pesquisar, o que é mais um ponto positivo, pois pelo menos se trata de alguém qualificado sobre o assunto. Seria esse o artigo a derrubar a Evolução?

Nao. E ele não tenta ser isso. Wolf-Ekkehard é um criacionista orgulhoso, mas ele teve o bom-senso de não citar o Design Inteligente no artigo – apesar de ele fazer diversas citações à trabalhos criacionistas na esperança de trazer alguma legitimidade a eles, incluindo o Darwin’s Black Box do Behe, e falar na última tinha do trabalho que “devemos continuar dando boas-vindas à ideias e hipóteses alternativas à origem da vida”. Sendo esse o último artigo, se o próprio não tenta dar sustentação ao Criacionismo, não tem porque seguir adiante.

Veredito: Viola o item 3 da nossa lista de critérios.

Só vale lembrar a velha máxima: Mesmo se o artigo estivesse certo e existissem problemas sérios com a Teoria Evolutiva (Não existem – existem fenômenos que não compreendemos totalmente, mas não existem buracos irreparáveis na teoria que comprometem sua validade), isso não significaria que o Criacionismo se tornaria a resposta-padrão.

E assim encerramos o penúltimo texto da nossa série, queridos leitores! Semana que vem, fecharei o assunto com considerações finais. Muito obrigado e nos vemos lá!

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