Analisando as Falhas de Artigos Científicos Criacionistas, Parte 4 – Douglas D. Axe

Antes de começar, leia a introdução da série AQUI!

Olá pessoal, sejam bem-vindos de volta à nossa série, onde analisamos artigos que supostamente dão sustentação para o criacionismo. Dessa vez, iremos explorar três artigos – provavelmente o maior número de artigos de um único autor em toda a série. Os três possuem como autor principal o Dr. Douglas D. Axe, Biólogo Molecular e atual diretor do Biologic Institute, um braço do Discovery Institute (Lembra dele?) dedicado à produzir evidências científicas que suportem o Design Inteligente.

Nisso já observamos algo muito preocupante. A ciência não deve ser feita com uma conclusão já pré-estabelecida. A ciência segue as evidências e elabora as conclusões a partir delas, e não estabelece a conclusão e tortura as evidências até elas dizerem o que o pesquisador deseja. Mas tudo bem, pelo menos Douglas Axe é um pesquisador legítimo, com credenciais relevantes ao assunto. Provavelmente o mais bem credenciado dentre os que analisamos até agora! Será que finalmente encontramos o pesquisador que confirmará o Criacionismo?

Antes de irmos aos Artigos, vamos falar um pouco mais sobre Douglas Axe.  É importante ressaltar uma coisa: O próprio Axe admitiu no passado que “seus trabalhos não tinham relevância nenhuma para o Design Inteligente”, conforme documenta Kevin L O’Brien. Kevin também documenta que, pouco após essa declaração, o nome de Axe foi removido do Discovery Institute. Pelas minhas pesquisas, ele parece ter voltado, fora a publicação do Livro recente “Undeniable” (“Inegável”, demonstrando um claro fechamento ao debate), então suponho que ele resolveu se assumir mesmo como criacionista. Me pergunto o que aconteceu.

Douglas, como eu disse anteriormente, é um pesquisador legítimo, com algumas publicações legítimas, ainda que não em periódicos de ponta. Além disso, uma visita ao Scopus do Dr. Axe mostra uma produtividade, na minha opinião, baixa – 12 trabalhos, o último de 2008 (pesquisando eu achei outros papers – mas no periódico BIO-Complexity, que é mantido pelo Discovery Institute, não tem Fator de Impacto calculado devido à sua irrelevância e francamente não é uma publicação legítima, por motivos que abordaremos no futuro). Pode ser um erro do Scopus, não sei. Além disso, Axe possui alguns textos preocupantes no portal do Discovery Institute, como Este (https://www.evolutionnews.org/2016/06/public_opinion/) intitulado “A opinião pública é o peer-review definitivo” – o que é absolutamente incorreto. A opinião pública é facilmente impressionável por charlatões e desonestos. Você precisa convencer a academia primeiro para, então, apresentar suas ideias ao público, como já explicamos em textos anteriores dessa série. A revisão por pares é um pilar essencial da ciência e não pode ser substituído pela opinião pública. 

Douglas Axe também é notório por ser um signatário da Scientific Dissent From Darwinism, um abaixo-assinado de pesquisadores que discordam da evolução. A lista atualmente contra com pouco mais de 1200 assinaturas, e é apontado por criacionistas como um tipo de legitimação de seu movimento. Isso, naturalmente, é uma falácia – a chamada Apelo à Autoridade – mas nem para isso ela serve. A Scientific Dissent from Darwinism corresponde à aproximadamente 0,03% de todos os cientistas do mundo (segundo a RationalWiki), e uma parcela significativa dos signatários não possui conhecimento em biologia ou evolução – ou seja, não são qualificados para discutir o assunto. Uma resposta bem-humorada à Dissent foi o Steve Project, uma lista de pesquisadores que apoiam a evolução que só pode ser assinada por pesquisadores chamados Steve (Ou variantes). Ela conta com 1187 assinaturas (contabilizado em 2012), com 2/3 sendo biólogos qualificados (Uma proporção maior que a da Dissent). Se os critérios do Project Steve fossem aplicados à Dissent em 2012, ela ficaria com apenas 12 assinaturas (Novamente, em 2012), com apenas um deles sendo um biólogo qualificado.  A Dissent é considerada similar à um livro dos anos 30, o A Hundred Authors Against Einstein, livro que reuniu o apoio de 100 cientistas contra as idéias da Relatividade e é lembrado como “os últimos suspiros da velha guarda da ciência”. A resposta de Einstein foi “Por que 100 autores? Se eu estou errado, um bastaria!”.

Aqui vale o mesmo. 1200 pesquisadores (muitos desqualificados) que apoiam o Criacionismo não significam nada – o que importa é se as conclusões embasadas nas evidências que eles apresentam são capazes de convencer a comunidade científica como um todo. Até agora, não foram.

Bom, vamos aos artigos.

1 – Douglas D. Axe, “Estimating the Prevalence of Protein Sequences Adopting Functional Enzyme Folds,” Journal of Molecular Biology, Vol. 341:1295–1315 (2004).

Como sempre, conto com a ajuda do excelente Panda’s Thumb, texto de Arthur Hunt. E dessa vez ele realmente vai ser importante – sendo bem sincero, eu bati o olho no artigo e não entendi muita coisa. Ele é longo, e de uma área a qual eu não domino. Portanto saibam que quase tudo que vou falar vai ser apoiado – em alguns casos, até traduzido – do texto do Panda’s Thumb.

O trabalho de Axe se assemelha um pouco ao de Behe que mencionamos na última parte da série: Ele tenta provar que a chance de surgimento de uma função proteica (No caso, enzimática) é muito baixa, tentando estabelecer o argumento que, se elas são tão baixas, não poderia ter surgido por processos evolutivos. E, como os artigos de Behe, Axe não coloca no artigo qualquer tipo de discordância da Evolução, ou sequer menciona o Design Inteligente. Isso, por si só, seria suficiente para descartar o artigo (baseado no item 3 da nossa lista de critérios), mas seguiremos em frente.

O artigo utiliza uma metodologia onde Axe gerou mutações aleatórias de uma enzima penicillinase, ou seja, uma enzima capaz de gerar resistência bacteriana à penicilina, um antibiótico muito comum. Axe então observou quantas destas mutações geraram mutantes ainda funcionais. O problema é que, ao elaborar sua metodologia, Axe argumentou que a TEM-1 (A penicillinase em questão) “padrão” seria muito resistente à mutações e que, portanto, fazia mais sentido usar uma versão da enzima já previamente degradada. Assim, Axe efetivamente sabotou a proteína ANTES de induzir as mutações, e isso traz algumas implicações que comprometem muito as conclusões que Axe deseja atingir.

Arthur Hunt, do Panda’s Thumb, afirma portanto que Axe deliberadamente selecionou um escopo muito limitado ao seu trabalho. No texto, Arthur demonstra isso visualmente. À grosso modo, esta imagem representa o número de possíveis variantes enzimáticas, e sua capacidade funcional, em um gráfico de três dimensões. Assim, a “acessibilidade de função” é representada pela base do pico na figura a baixa – quanto maior a base, maior o número de sequências proteicas funcionais, e maior as chances dessa função surgir por processos evolutivos.

Esse gráfico seria uma representação (meramente ilustrativa) da ação de uma enzima normal:

E esse gráfico seria a representação das possibilidades dentro das restrições que Axe causou:

Ou seja, não pode-se dizer que o experimento é realmente representativo de uma enzima normal.

Porém há mais um ponto: Conforme Arthur afirma, atividades enzimáticas raramente são processos isolados – atividades e enzimas distintas são comumente derivadas de temas estruturais e funcionais semelhantes. Assim, em uma análise mais ampla, o primeiro gráfico, da proteína normal, seria algo mais parecido com isso:

E há ainda mais uma complicação: A existência de estruturas e sequências completamente não-relacionadas, mas que desempenham tarefas semelhantes. O trabalho de Axe não leva nada disso em consideração.

O artigo do Panda’s Thumb explica de forma melhor, mas consideravelmente mais complexa. Trocando em miúdos: A representatividade do modelo de Axe é bastante questionável.

Veredito

Portanto, entre esses problemas metodológicos tornam impossível afirmar, embasado nesse trabalho, que a atividade enzimática seja tão rara a ponto de não poder ter surgido por processos naturais. Além disso, o artigo não tenta montar um caso contra a evolução e, acima de tudo, à favor do DI. Falha nos itens 2 e 3 da nossa lista de critérios.

Portanto, não, ele não serve para sustentar a idéia que a Evolução é falha ou que o Criacionismo é uma alternativa válida para a explicação da biodiversidade terrestre.

Douglas D. Axe, “Extreme Functional Sensitivity to Conservative Amino Acid Changes on Enzyme Exteriors,” Journal of Molecular Biology, Vol. 301:585-595 (2000).

Esse artigo foi publicado antes do anterior, na virada do milênio. Novamente, por se tratar de um artigo bastante técnico e de uma área onde tenho pouco domínio, me apoio na excelente refutação do Panda’s Thumb (https://pandasthumb.org/archives/2005/02/bill-dembski-an.html) por Matt Inlay (Percebam que essa série está rapidamente se transformando em uma tradução dos textos do Panda’s Thumb. Não é por acaso – acabei notando que alguém já tinha refutado a maioria desses trabalhos antes de mim e, portanto, não fazia sentido não tirar proveito disso).

Este artigo também lida com mutagênese no gene da TEM-1, que confere resistência bacteriana. Nesse caso, Axe quis testar a idéia da teoria neutra, onde diversas mudanças que não causam alterações na função da proteína poderiam se acumular ao longo do tempo para gerar uma nova função.

O paper de Axe procurou causar diversas mutações e observar seus efeitos sobre a função da enzima. E de fato, as mutações causaram uma redução da enzima – foram necessárias alterações em 30 aminoácidos para reduzir 99% da função da enzima, e 40 para extinguí-la. Isso é uma alteração de 10% do total da proteína.

A evolução não afirma que enzimas podem sobreviver a uma mudança de 30 aminoácidos. O processo é muito mais gradual, uma mutação por vez. E um estudo realizado por outro grupo, liderado pelo Dr. Wang, analisou a mesma proteína. O que eles observaram: Mutações mais leves em uma enzima também causaram uma drástica redução na função da enzima… Mas aumentaram outra. Basicamente, ela deixou de gerar resistência à penicilina mas aumentou a resistência contra a cefalosporina, outro antibiótico, demonstrando como mutações podem pegar uma estrutura já estabelecida e fornecê-la uma nova função – perfeitamente compatível com a evolução.

Ah, e novamente, esse artigo sequer menciona o design inteligente, nem ataca de forma direta a evolução (E também não faz a ponte que une “Evolução ser falsa” a “Criacionismo ser o correto”).

Veredito

Esse estudo não é tão falho em sua metodologia, ele só é meio inútil – sim, mutações drásticas reduzem a função de uma enzima, mas isso é conhecido. Decididamente não é uma prova que tais processos não poderiam surgir por processos evolutivos e, como já discutimos em partes anteriores dessa série, existe uma literatura extensa demonstrando mecanismos evolutivos do surgimento de funções proteicas e enzimáticas. É necessário, antes de mais nada, mostrar que todos esses (ou a maioria desses) trabalhos estão errados. Assim, o trabalho falha nos itens 2 e, principalmente, 3 da nossa lista de critérios.

Logo, este trabalho não sustenta a Criacionismo como uma teoria científica alternativa à evolução.

Douglas D. Axe, Brendan W. Dixon, Philip Lu, “Stylus: A System for Evolutionary Experimentation Based on a Protein/Proteome Model with Non-Arbitrary Functional Constraints,” PLoS One, Vol. 3(6):e2246 (June 2008).

Todos juntos comigo agora: Esse artigo sequer menciona o criacionismo e tampouco tenta refutar a evolução. De fato, a intenção do artigo é criar e aplicar um modelo computacional para o estudo de evolução de proteínas.

E dessa vez, não vou contar com muito apoio de fontes externas porque, bem… não precisa! Esse paper literalmente não tem nada a ver com o assunto. Até li o artigo com mais atenção que os anteriores, tentando entender porque a página criacionista e o Discovery Institute pensam que esse artigo dá suporte ao Criacionismo.

Pelo que entendi lendo a introdução, Axe até traz algumas de suas ideias tradicionais na introdução, e menciona algumas coisas ao longo do texto, como essa frase:

“… nenhuma simples troca de apenas alguns aminoácidos parece ser capaz de converter uma função [proteica] em outra”

O que não é verdade, como demonstramos no item anterior com o trabalho de Wang X. E sua equipe (Aquele artigo não sendo o único, naturalmente).

Ainda assim, o trabalho de Axe é literalmente o desenvolvimento de uma ferramenta para estudar a Evolução. Ele não a rejeita – pelo contrário, a abraça, ao menos nesse artigo. E o modelo é interessante, para dizer o mínimo – ele é baseado nos caracteres da linguagem chinesa, comparando-os às proteínas. Achei um pouco arbitrário e forçado, mas ele faz um bom esforço em apontar similaridades (Por exemplo, o fato que palavras similares, representadas por símbolos diferentes, compartilham de traços semelhantes entre si – uma analogia à proteínas estruturalmente similares mas cujas diferenças geram funções diferentes).

É importante ressaltar que o próprio editor da PloS One, periódico onde o artigo foi publicado, afirmou que “não detectou nenhum viés [ideológico] no artigo [em favor do Criacionismo/DI] nesse manuscrito, tampouco os resultados dão suporte ao Criacionismo/DI de qualquer maneira”. E também relembrou a todos que “Nada substitui dados empíricos” – ou seja, o modelo de Axe, mesmo se for bom (Não sou qualificado para julgar), não traz fatos, não substitui a boa e velha evidência empírica direta.

Veredito

Esse artigo é o menos relacionado ao assunto de toda a lista até agora. Traz uma nova ferramenta para o estudo da evolução proteica, não fornece suporte ao Criacionismo/DI e tampouco tenta negar a evolução. Falhou no item 3 de nossa lista de critérios. É um artigo potencialmente interessante dentro da área, mas não uma evidência contra a evolução ou a favor do criacionismo.

E é isso. Até a próxima edição da nossa série, onde iremos avaliar os artigos de William Dembski, efetivamente o maior defensor moderno do argumento da Complexidade Especificada (A qual já refutamos ao longo dessa série, e o faremos de novo). Abraços e até lá!

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