Fosfoetanolamina: Não possui eficácia (in vitro) nem pureza

Imagem de capa: Cecília Bastos/USP Imagens

Falamos recentemente sobre a preocupante descoberta que a Fosfoetanolamina poderia ser um fator de crescimento tumoral aqui no Mural. Esse fim de semana, mais informações ganharem relevância através de um post no blog Carlos Orsi, que trouxe à tona dois relatórios publicados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que dizem respeito à atividade in vitro – ou seja, fora de organismos vivos – da droga no combate ao câncer.

O primeiro dos relatórios testou a fosfoetanolamina sintética contra células de câncer pancreático e melanoma (Câncer de pele). A primeira coisa que os pesquisadores apontaram é que a fosfoetanolamina que foi utilizada como medicamento sequer é pura – testes realizados em dois laboratórios apontaram uma pureza entre 17% e 32%. O restante da substância seria composto de contaminantes como monoetanolamina, sais de fosfoetanolamina, fosbisetanolamina, fosfatos e água. Por fim, nos testes realizados, a “fosfo” foi inútil para promover a morte das células cancerígenas. Apenas um dos contaminantes – a monoetanolamina – apresentou atividade tóxica contra as células cancerígenas, mas apenas em altíssimas concentrações, muitas vezes maiores que a concentração de cisplatina (O composto utilizado como referência no estudo) necessária para provocar o mesmo efeito.

 

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Testes in vitro como estas consistem em cultivar uma linhagem celular em laboratório, fora de um organismo vivo, para se testar a ação de substâncias sobre as mesmas. São importantes para investigarem fármacos com potencial para que se executem as próximas fases de estudo (Imagem: Matrs via openclipart)

O segundo testou a fosfoetanolamina sintética e uma variante, a fosfoetanolamina nanoencapsulada, contra 5 linhagens celulares – três cancerígenas (De intestino, próstata e cérebro) e duas normais (células sanguíneos e fibroblastos, que são células presentes em diversos tecidos e responsáveis pela síntese de colágeno). Novamente, os resultados apontaram a ineficácia do composto para ação antitumoral, pois só passavam a exibir algum tipo de efeito em altíssimas concentrações.

Porém, ambos os relatórios fazem ressalvas: É possível um composto não ter atividade in vitro e ainda assim apresentar ação in vivo (ou seja, em organismos vivos) através de diversos processos metabólicos que não são possíveis de se replicar em um estudo in vitro. Além disso, a equipe do segundo relatório ressaltou que a Fosfoetanolamina nonoencapsulada apresentou seletividade para as células cancerígenas, o que seria uma característica benéfica caso a droga viesse a fazer efeito, visto que pouparia as células normais do indivíduo.

Mesmo assim, não há como negar que esses resultados não são favoráveis à fosfoetanolamina. É especialmente triste porque quantidades muito grandes de dinheiro foram e serão destinadas à pesquisa da fosfoetanolamina este ano e no próximo, apesar de não haver evidências concretas de sua viabilidade desde o começo, apenas sensacionalismo midiático e fé de um povo cientificamente analfabeto. E se chegar ao fim desse investimento sem os resultados esperados, esse terá sido um dinheiro perdido, que poderia ter sido utilizado para muitas outras pesquisas país afora. E tudo isso por causa de uma história que cresceu demais.

 

Sobre o Autor - Lucas Rosa.png

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