Crise de reprodutibilidade na psicologia?

Imagem de capa: RCA Records, licença desconhecida. Extraída de Cult of Digital

A pouco tempo atrás, reportamos o atual debate sobre o “hiato” ou “desaceleração” no aquecimento global. Mas a ciência é cheia de debates e discussões, e uma outra vem se desenrolando paralelamente, dessa vez na área da psicologia.

A reprodutibilidade é um dos pilares do método científico, que é a forma como o conhecimento científico é construído. Reprodutibilidade é a capacidade de um estudo ser reproduzido, seja pela mesma equipe ou por outra. É uma característica importante da ciência, porque garante que os resultados de um experimento são universais. Um estudo que não possa ser reproduzido é, na melhor das hipóteses, um estudo com uma conclusão não-confiável – e, na pior das hipóteses, fraude.

Porém, poucos são os periódicos científicos dispostos a publicar estudos de reprodução, visto que eles não trazem novidades. Uma das maneiras de combater essa situação são iniciativas como o Open Sicence Colaboration (OSC), onde diversos pesquisadores se reuniram com o mesmo objetivo: Verificar a Reprodutibilidade de 100 estudos da área de psicologia publicados em 2008. Os resultados foram preocupantes, publicados na revista Science em Agosto de 2015: Apenas 47% dos experimentos foram reproduzidos com sucesso, atingindo resultados similares ao do experimento original.

Puxando a alavanca você leva um raio? Você só pode afirmar isso se testar várias vezes… (Tradução: Reproductibilidade – um princípio do método científico. Separa cientistas de outros pesqusiadores e pessoas normais. No desmembramento do terceiro círculo: Pessoas normais – suponho que eu não deva fazer isso de novo…. ; Cientistas – Me pergunto se isso acontece todas as vezes…) (Autoria: Carole Goble, 23 de Julho 2013 em ISMB/ECCB 2013)

Isso certamente coloca a credibilidade de toda a ciência da psicologia em xeque, não? Não necessariamente. Na edição de 4 de Março da Science, dois textos-resposta ao artigo foram publicados.

Um, cujo autor principal é Daniel Gilbert da Universidade de Harvard, criticou duramente o experimento original. Gilbert e sua equipe afirmam que os pesquisadores da OSC cometeram diversos erros amostrais – ou seja, usaram amostras (No caso, populações de pessoas) inadequadas. Também criticaram a metodologia do estudo, que repetiu muitos experimentos mas poucas vezes, o que favoreceria a falha das replicações, ao contrário de replicar um menor número de experimentos mais vezes, e afirmaram que o OSC introduziu vieses em seu estudo ao utilizar metodologias que diferiam dos estudos originais. Gilbert afirmou que na verdade, os dados sustentam a hipótese contrária – que a reprodutibilidade na psicologia estava muito bem, obrigado.

O segundo texto foi em resposta ao comentário de Gilbert e seus colegas, e afirmou que o próprio Gilbert cometeu diversos erros em sua análise e nas comparações que realizou, e que sua conclusão era muito otimista. Para essa segunda equipe – composta de diversos pesquisadores – os dados do estudo da OSC sustentam ambas as conclusões.

É importante portanto que essa questão seja melhor estudada, de forma a assegurar a confiança dos estudos da área. É importante estender também iniciativas assim para outras áreas. A maior força da ciência é sua capacidade de se auto-avaliar e se auto-aprimorar.

Sobre o Autor - Lucas Rosa.png

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