Curiosity encontra, em Marte, compostos orgânicos que apontam para extinta forma de vida

Washington, DC — A sonda Curiosity acabou de descobrir novas moléculas orgânicas “sólidas” que datam de três bilhões de anos atrás, em rochas sedimentares em Marte, o que aumenta a chance de alguma forma de vida habitacional do planeta vermelho ter sido preservada apesar das condições naturais de sua superfície serem extremamente hostis.

“A superfície marciana está exposta a radiação do espaço e a elementos químicos que quebram facilmente matéria orgânica, então encontrar tais moléculas dentro dos primeiros centímetros de superfície – de um tempo quando Marte poderia ter sido habitado – é uma ótima deixa para que nós possamos aprender mais sobre as moléculas que encontramos, e que possamos buscar além em futuras expedições,” disse a autora do artigo Jen Eigenbrode, do Centro de Voo Espacial Goddard, da NASA, que também é uma pós-doutorada em Carnegie e seu laboratório de geofísica.

Moléculas orgânicas contêm carbono e hidrogênio, e também podem incluir oxigênio, nitrogênio, dentre outros elementos. Compostos orgânicos são mais comumente associados à vida, ainda que eles também possam ser criados através de processos não-biológicos, processos estes que são chamados de química orgânica abiótica. Não há como a Curiosity sozinha determinar se os materiais encontrados vieram de uma antiga forma de vida marciana ou não, de acordo com Eigenbrode.

“Mesmo que isso não seja a prova de vida alienígena, podendo ser o seu alimento ou uma reação de um processo na ausência de vida, a matéria orgânica que detectamos nos dá sinais das condições planetárias e os seus processos,” Eigenbrode diz.

Andrew Steele foi um membro-chave na equipe de pesquisa, cujo trabalho neste projeto abriu portas para sua descoberta seis anos atrás da presença de carbono orgânico nativo em dez meteoritos marcianos. As moléculas orgânicas que ele achou em 2012 são comparáveis às que a sonda Curiosity encontrou este ano.

Como a maioria das amostras, as rochas dos meteoritos obtidas pela Curiosity devem ser aquecidas a temperaturas muito altas, variando entre 500 e 800 graus Celsius (932 e 1,472 graus Fahrenheit respectivamente), para que sua estrutura orgânica seja capaz de emitir gases. Com os hidrocarbonetos sendo liberados a temperaturas tão altas, pode ser possível determinar se estão vindo de outras moléculas orgânicas ainda mais resistentes dentro da rocha.

Rochas sedimentares foram perfuradas em quatro áreas na base da Montanha Sharp, o monte central da cratera Gale. Ainda que a superfície de Marte seja inabitável nos dias de hoje, há evidência de que em um distante passado o clima marciano permitiu a presença de água líquida, um elemento crucial para a vida na superfície.

A análise realizada pela Curiosity indica que há bilhões de anos, um lago dentro da cratera Gale continha todos os ingredientes necessários para a vida, incluindo blocos de construção químicos, fontes de energia e água líquida. Essa rocha sedimentar formou-se do lodo que se instalou na água, e acumulou-se no fundo do lago. Cientistas determinaram a idade das rochas através do método de contagem de crateras; como as crateras de meteoritos acumulam-se através do tempo, quanto mais uma região possui crateras mais antiga ela é. Ainda que não haja método para provar a idade de seu material orgânico, supõe-se que ele seja tão antigo quanto as rochas na qual foi encontrado.

Os resultados indicam concentrações de carbono orgânico na proporção de dez partes por milhão ou mais. Isso é próximo da quantidade observada em meteoritos de Marte, e aproximadamente cem vezes mais do que detecções locais anteriores. Algumas das moléculas identificadas incluem tiofenos, benzeno, tolueno e pequenas cadeias de carbono, como propano ou buteno. Outras moléculas orgânicas, tais como cloro, já foram descobertas em Marte previamente.

A descoberta de carbono preservado na superfície de Marte dá aos cientistas confiança de que a missão da NASA para 2020 e a sonda ExoMars, da Agência Espacial Europeia, trarão mais descobertas orgânicas, tanto na superfície quanto em seu subsolo.

Michael Myer, cientista-programador do Laboratório de Ciência de Marte da NASA, pergunta: “Há sinais de vida no planeta vermelho? Ainda não sabemos, mas estes resultados certamente mostram que estamos no caminho certo para a resposta.”

Steele diz que os próximos passos incluirão procurar por compostos orgânicos nas amostras que podem ser liberados a temperaturas mais baixas também. “O próximo objetivo de nossa pesquisa será extrair material das rochas a menos de 600 graus Celsius, o ponto onde descobriremos evidências de atividade biológica ou os tipos de química abiótica que pode ter dado origem à vida,” disse ele.

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Este trabalho foi fundado pelo Programa de Exploração à Marte da NASA. O Centro de Voo Espacial Goddard forneceu o instrumento SAM. O Laboratório de Propulsão a Jato, uma divisão do Instituto de Tecnologia de Pasadena, na Califórnia, construiu a sonda e administra o projeto para a Diretoria de Missões Científicas da NASA, em Washington.

O Instituto Carnegie Pela Ciência (carnegiescience.edu) é uma organização privada, não-lucrativa, situada em Washington, D.C., com seis departamentos de pesquisa espalhados pelos Estados Unidos. Desde a sua fundação em 1902, o Instituto Carnegie tem sido uma força pioneira em pesquisas científicas. Cientistas de Carnegie estão entre os líderes nos ramos de biologia botânica, biologia de desenvolvimento, astronomia, ciência material, ecologia global e ciência terrestre e planetária.

Fonte da matéria: EurekAlert!
Fonte da imagem: Huffington Post

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