Rodovias: uma auto-estrada evolutiva?

Imagem de Capa: Ben Sutherland via Wikimedia Commons

De acordo com um artigo recente publicado no periódico Frontiers in Ecology and the Environment, as estradas podem estar provocando mudanças evolutivas muito rápidas em certas populações de plantas e animais selvagens.

Consideradas o maior artefato de origem humana no planeta, se estima que os sistemas viários impactem cerca de 20% do território dos Estados Unidos. No caso do nosso país, é sabido que quando uma rodovia é construída num ambiente como o da Amazônia, logo tem início um processo de ocupação humana que impacta esse meio, atraindo a atividade de grileiros, madeireiras ilegais e demais agentes[1] que além do desmatamento, podem levar à problemas sociais e conflitos de terra.[2]  A biodiversidade também pode ser prejudicada, com a introdução de espécies estranhas ao ambiente, como o caso do chopim (Molothrus Bonariensis), que tem uma relação de parasitismo com o pipira (Ramphocelus carbo), pássaro comum na região amazônica que teve a sua população afetada pela expansão do invasor às suas custas.[3]

Há projeções de que até 2050, as rodovias se expandam cerca de 60% no mundo inteiro, e apesar do impacto já mencionado, outros aspectos ambientais são muitas vezes desconsiderados. É o caso das possíveis mudanças evolutivas que essas estruturas estejam causando na fauna e flora.

Baseando-se em estudos anteriores, os pesquisadores da Universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, mostraram que os efeitos negativos das estradas podem levar a transformações evolutivas aceleradas nas populações de seres vivos próximas às estradas. É o caso da maior tolerância a poluentes demonstrada pela grama-de-cheiro (Anthoxanthum odoratum) e por uma espécie de salamandra (Ambystoma maculatum). No entanto, nem sempre os organismos conseguem se adaptar, podendo vir a ter menos tolerância às consequências negativas da construção dessas vias.

Foi isso que o biólogo Steven P. Brady, um dos autores do estudo, descobriu ao fazer trabalho de campo: a taxa de sobrevivência das populações de rã-da-floresta (Rana sylvatica) que viviam às margens de estradas era 29% menor na comparação com outros grupos. Segundo o pesquisador, “há muito tempo sabemos que cortar e retalhar nosso planeta com estradas expõe as plantas e animais à muitos desafios, mas nós estamos apenas começando a perceber que alguns deles podem levar a mudanças evolutivas em apenas algumas gerações. Isso nos força a reconsiderar a natureza dos efeitos das rodovias e a complexidade das maneiras em que a vida responde à elas”.

Para Brady, o que mais o surpreende são as diferenças na adaptação que cada população demonstra ter: enquanto algumas parecem se adaptar, outras, que crescem próximas a elas dão sinais de ter mais dificuldades. O biólogo também adverte que esses resultados negativos podem se tornar mais comuns, como consequência da modificação de ambientes pela atividade humana, como é o caso dos habitats adjacentes às estradas.

Entender a ecologia das rodovias de uma perspectiva evolutiva é fundamental para saber o impacto dessas estruturas no ambiente e planejar maneiras de mitigar seus efeitos através de medidas de conservação ambiental. Uma política integrada que maximize a conexão entre hábitats, preserve a diversidade genética e aumente o tamanho das populações de animais e plantas pode moderar as perturbações desse tipo de atividade humana na natureza.

Fonte: EurekAlert

[1] http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2015/10/impactos-ambientais-vao-alem-da-pista-da-br-319-dizem-pesquisadores.html

[2] http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2008/03/20/37078-alem-do-desmatamento-rodovias-na-amazonia-geram-problemas-sociais.html

[3] http://www.oeco.org.br/reportagens/21586-caminho-livre-ao-coracao-da-amazonia/

sobre-o-autor-alejandro-rico

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