O preço que o meio ambiente paga pelas nossas lentes de contato

Muitas pessoas dependem de suas lentes de contato para melhorar a visão, mas esses produtos não duram para sempre – alguns são até mesmo de uso único – e são eventualmente descartados de diferentes maneiras. Agora, cientistas estão observando que o descarte doméstico das lentes de contato tem contribuído para o aumento da poluição ambiental.

Os pesquisadores estão apresentando os seus resultados de estudo no 256º Encontro Anual da Exposição da Sociedade Química Americana (ACS), a maior sociedade científica do mundo, que estará conduzindo o evento que abrangerá uma vasta gama de assuntos sobre ciência até quinta-feira.

A inspiração para esta pesquisa partiu de uma experiência pessoal: “Eu usei óculos e lentes de contato a minha vida adulta inteira,” diz Rolf Halden, Ph.D. “Mas então comecei a me perguntar, será que alguém já fez uma pesquisa sobre o destino dessas lentes?”. Sua equipe já estava realizando trabalhos na área da pesquisa sobre poluição plástica, então foi um sinal alarmante não terem encontrado nenhum resultado sobre o tema.

“Nós começamos a observar o mercado e demanda americana e formulamos um questionário para os usuários de lentes. Nós descobrimos que 15 a 20 porcento dos usuários descartam as lentes através do vaso sanitário ou do ralo da pia”, constatou Charlie Rolsky, um estudante de Ph.D. que está atualmente apresentando o seu trabalho. Halden, Rolsky e um terceiro membro da equipe, Varun Kelkar, estão no Centro de Engenharia da Saúde do Instituto de Biodesign, na Universidade Estadual do Arizona. “Esse é um número imenso, considerando que aproximadamente 45 milhões de pessoas somente nos Estados Unidos fazem uso de lentes de contato.”

Lentes que são descartadas desse modo acabam em estações de tratamento de água. A equipe estima que um número entre seis e dez toneladas métricas de lentes de contato acabam em depósitos de águas residuais a cada ano nos Estados Unidos. Essas lentes costumam ser mais densas do que a água no entanto, o que significa que elas afundam, e isso pode ser uma ameaça à vida aquática, especialmente a peixes de maior profundidade que podem acabar ingerindo-as, avisa Halden.

Analisando o que acontece com as lentes é um desafio por diversas razões: primeiro, elas são transparentes, o que torna difícil observar e estudá-las no complicado cenário de uma estação de tratamento de água. Ademais, o plástico usado em sua produção é diferente dos outros que acabam no lixo, como prolipropileno, que pode ser encontrado em tudo, desde baterias de carro a produtos têxteis. Lentes de contato são frequentemente feitas com uma combinação de plástico metilmetacrilato, silicones e fluoropolímeros para criar um material mais suave e que permita a passagem de oxigênio. Portanto ainda é desconhecido como são afetadas, nas estações de tratamento, pelo contato com águas residuais.

Essas diferenças transformam o processamento de lentes descartadas em outro desafio. Para ajudar a amenizar o problema, os pesquisadores expuseram cinco polímeros encontrados em vários fabricantes do produto a microorganismos aeróbicos e anaeróbicos presentes em estações de tratamento de esgoto por períodos variados e conduziram uma espectroscopia Raman para analisá-las depois. “Nós vimos mudanças notáveis na estrutura das lentes de contato após a exposição a longo prazo com os micróbios”, disse Kelkar. A equipe concluiu que os micróbios no ambiente estudado das instalações de tratamento alteraram a superfície das lentes, enfraquecendo os elos dos polímeros plásticos.

“Quando o plástico perde um pouco de sua força estrutural, também começa a fisicamente se partir. Isso leva à criação de partículas menores, que por sua vez levariam à formação de microplásticos,” Kelkar explica. Organismos aquáticos podem confundir esses microplásticos com comida, e visto que eles não são digeríveis acabam afetando dramaticamente o sistema digestivo do animal marinho. O pior de tudo? Esses animais são parte de uma cadeia alimentar muito maior, e podem acabar na nossa linha de consumo, nos levando a exposições indesejadas a contaminantes e poluentes que aderem à superfície do plástico.

Chamando atenção a esta pesquisa de estréia no assunto, a equipe espera que a indústria possa ao menos tomar nota do problema colocando um aviso nas embalagens que possa alertar o público sobre como fazer o descarte responsável das lentes de contato, colocando-as junto do lixo sólido. Halden também comenta: “No final das contas, esperamos que os produtores conduzam uma pesquisa a respeito do impacto de seus produtos na vida marinha, e quão rápido é o seu processo de decomposição nesse ambiente.”

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Fonte da matéria: EurekAlert!
Fonte da imagem: ScienceAlert.com

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