O comportamento e a Neurobiologia por trás da liderança

Traduzido de BrainPost

A liderança é um fator crítico em nossa sociedade. Líderes como professores, soldados, políticos e pais, nomeando apenas alguns, são continuamente responsáveis por tomar decisões que afetarão os outros. Um aspecto da liderança é a aceitação da responsabilidade, já que líderes são responsáveis por outros nas decisões que tomam. Apesar do fato de a liderança ser central nas sociedades humanas, nós ainda não entendemos a neurobiologia da liderança e por que alguns escolhem liderar e outros preferem seguir. Na primeira semana de agosto de 2018, na Science, Edelson e colegas usaram uma tarefa de tomada de decisão para examinar as escolhas de liderança e regiões cerebrais envolvidas.

Eles desenvolveram uma tarefa comportamental para examinar as preferências de liderança. Os participantes desempenharam duas tarefas: uma tarefa de linha de base e uma de delegação. Em ambas tarefas, a contrapartida ao participante dependia de suas escolhas, e portanto refletia preferências relacionadas ao risco, perda e ambiguidade. Na linha de base, eles precisavam escolher se aceitariam apostar com probabilidades variáveis de perda e ganho, em diversas tentativas. Em algumas tentativas a probabilidade de perda e ganho era mostrada ao participante(para verificar a aceitação de risco), enquanto em outras as probabilidades não eram mostradas(ou seja, situações ambíguas mais próximas da realidade). Na tarefa de delegação, os participantes deveriam decidir se fariam as mesmas apostas, contudo, eles poderiam escolher liderar e tomar uma decisão pelo grupo, ou seguir a escolha dos membros do grupo. Nesta tarefa haviam duas tentativas, “individual” e “coletiva”, onde a escolha do líder afetariam a contrapartida dele mesmo ou do grupo, respectivamente. Os membros do grupo como um todo tinham mais informação sobre as probabilidades do resultado, o que imita um cenário real quando decidir em grupo pode ser mais vantajoso. Os autores analisaram os dados da linha de base para determinar se as preferências de risco, perda e ambiguidade se correlacionavam com a pontuação de liderança(obtida por escalas bem estabelecidas, assim como dados da vida real) e se há diferença nessas preferências quando a decisão impacta os outros. Eles usaram modelagem computacional e análise de fMRI(Ressonância Magnética Funcional) para entender as preferências de liderança e a atividade neural relacionada às escolhas.

Nas tentativas “coletivas”, os participantes preferiram não decidir mais frequentemente do que na condição individual(uma diferença de 17,3%), demonstrando uma preferência geral de evitar responsabilidade. Aversão à responsabilidade(ou evasão da responsabilidade) se correlacionou com a pontuação de liderança, onde aqueles com menor aversão à responsabilidade tinham maior pontuação de liderança. Aversão à responsabilidade não se relacionou às preferências individuais relacionadas ao risco, perda de ambiguidade, nem se relacionou com arrependimento e culpa em situações sociais(obtidos em outro experimento). Eles usaram então um modelo computacional considerando as preferências dos participantes para testar e modelas essas decisões. Das preferências dos participantes eles foram capazes de obter valores subjetivos(diferença em valor entre aceitar ou rejeitar uma aposta, para cada participante) de escolhas para liderar ou seguir. Eles encontraram que as escolhas de seguir eram maiores quando havia uma menor diferença de valor subjetivo( menor discriminabilidade entre o valor de duas escolhas). Em outras palavras, quando o participante tinha mais certeza, eles eram mais propensos a tomar responsabilidade. Eles definiram”limiares de recusa”, onde um nível crítico de certeza definia se eles recusariam ou não a aposta. Usando a modelagem computacional eles constataram que quando os indivíduos tomavam decisões pelos outros, havia uma mudança no limiar de recusa, indicando uma demanda maior para certeza na escolha. Essas mudanças no limiar se correlacionaram com a pontuação de liderança. Quanto maior a mudança no limiar, mais provável era o indivíduo recusar a aposta, ou seja, não liderar. Enquanto valores individuais estão em risco, perda e ambiguidade não se relacionaram com a pontuação de liderança, esses resultados mostram que a chave para determinar se alguém tomará ou não a liderança reside na mudança do nível de certeza necessário quando sua decisão afeta os outros.  

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Gráfico à esquerda mostrada a aversâo à responsabilidade no eixo x e pontuação de liderança no eixo y; gráfico central mostra a mudança no limiar de recusa, sendo no centro mais provável a recusa e nos extremos mais provável liderar; imagem à direita destaca o córtex pré-frontal medial e a ínsula anterior.

 

A ativação cerebral foi maior no giro temporal medial durante as tentativas coletivas comparado às individuais, e a atividade na junção temporo-parietal se correlacionou com a decisão de não liderar. Atividade em diversas regiões cerebrais como córtex pré-frontal medial(envolvido na autorreflexão) se relacionou com a diferença de valor subjetivo enquanto a atividade na ínsula anterior estava associada com a probabilidade de escolher liderar. Os autores utilizam um modelo causal dinâmico para descrever os resultados de ativação, encontrando uma relação entre diferenças individuais nessa rede cerebral, mudança no limiar de recusa e pontuação de liderança. Atividade no giro temporal também estava associada com uma influência reduzida ou inibida do córtex pré-frontal medial na ínsula anterior. Essa influência inibitória do córtex pré-frontal medial na ínsula anterior era reduzida em líderes, sugerindo um provável mecanismo neural subjacentes à mudança do limiar de recusa e aversão à responsabilidade.

Este é o primeiro estudo a examinar o comportamento e neurobiologia subjacentes às preferências de liderança. Nós agora sabemos que a maioria dos indivíduos mostra aversão à responsabilidade e que isto é um fator crítico para decidir liderar ou não. Aqueles que eram menos propensos a liderar mostraram uma mudança maior na demanda por certeza quando precisavam decidir pelos outros. Além disso, este estudo providencia um importante insight sobre as regiões cerebrais envolvidas nas decisões de liderança. Esses resultados têm importantes implicações no entendimento da liderança na sociedade e pode ajudar a informar decisões de liderança e suas consequências.

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Referências:

Imagem em Destaque: obtida na internet

The Behaviour and Neurobiology Underlying Leadership Decisions, https://www.brainpost.co/weekly-brainpost/2018/8/7/the-behaviour-and-neurobiology-underlying-leadership-decisions

Edelson et al., Computational and neurobiological foundations of leadership decisions. Science (2018).

sobre-o-autor-gabriel-deschamps

 

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