A Fosfoetanolamina falhou – e agora?

Finalmente essa semana, dia 31 de Março, o Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp) suspendeu os testes com a Fosfoetanolamina devido à ausência de benefício clínico significativo – de 59 pacientes, 58 não tiveram melhora. O único que teve foi um paciente com melanoma, e 1 caso entre 59 pode facilmente ser explicado como um efeito placebo ou por outros fatores – talvez o paciente tinha um sistema imune mais competente, ou o câncer era menos agressivo.

E com essa falha, esperamos que todos tenham aprendido uma lição. Primeiro: Não existe e provavelmente nunca existirá uma droga milagrosa contra todos os tipos de câncer. O câncer não é uma única doença, mas um grupo delas, que possui processos distintos, tratamentos específicos, características únicas. E os cânceres são doenças extremamente furtivas; um tumor é composto de células com danos ao DNA e altamente capazes de mutação. Portanto, elas adquirem resistência com facilidade aos tratamentos, e adquirem diversos mecanismos de escape do nosso sistema imune. É a vida em ação, é a seleção natural de Darwin trabalhando contra nós.

Ninguém está feliz que a fosfoetanolamina falhou. Todos adorariam que um milagre existisse. Mas ele não existe, e essa esperança vazia custou dez milhões aos cofres públicos – um valor sem precedentes na ciência brasileira para uma única linha de pesquisa em um único ano. A fosfoetanolamina efetivamente furou a fila, passando na frente de diversos outros medicamentos, tratamentos e fármacos que poderiam ser mais promissores do que a Fosfo, mas que não tiveram um circo midiático por trás.

Esse é o problema: Dar tanto dinheiro para algo que, para a maioria dos pesquisadores, não tinha tanta indicação de que teria sucesso. Deixou-se a população, a mídia e políticos ignorantes ditarem o que a ciência deveria fazer. Fez-se um verdadeiro culto em torno dessa droga, protegido pela estúpida teoria da conspiração de que a indústria farmacêutica estaria suprimindo-a de alguma forma.

Então que fique de lição: Vamos ouvir o que a comunidade científica tem a dizer. A opinião dela é a única que importa. É o fármaco que ela eleger como promissores, e não o público, que deve receber atenção e verbas. E por favor, vamos abandonar nossa esperança por soluções milagrosas. Nada na ciência vem fácil. Tudo na ciência precisa ser conquistado com anos de trabalho duro e metódico.

Mas bem – a fosfoetanolamina falhou, e agora? Estamos perdidos, condenados à usar os tratamentos atuais – que são eficientes, mas longe de serem perfeitos, e causam terríveis efeitos colaterais – até o fim dos tempos? É claro que não. Para cada fosfoetanolamina recebendo mais atenção do que deveria, existem dois tratamentos verdadeiramente promissores sendo desenvolvidos, sem receber tanta atenção. Eles podem não ser de origem brasileira, mas tudo bem – a ciência é um esforço global, um empreendimento da humanidade, não de países específicos. Aqui estão algumas coisas que devem lhe dar esperança de um futuro onde o câncer possa ser tratado com alto sucesso.

1 – Fármacos ativados por luz, ou Fotofarmacologia

Um dos problemas no tratamento do câncer é o fato da doença estar localizada em um tecido específico. Fica difícil de se intervir – como diabos você administra uma droga que seja tóxica para o câncer, mas apenas para o câncer, sendo que o tumor nada mais é do que suas próprias células fora de controle?

Esse paradoxo está começando a ser resolvido através de fármacos ativados por luz, uma solução estupidamente simples para um problema tão complexo. Já falamos sobre eles anteriormente aqui no Mural, mas os abordados naquela matéria não são os únicos. Existe também aquelas que utilizam anticorpos para se ligar aos tumores no tecido alvo, para então serem ativadas por luz.

Independente disso, o princípio é o mesmo: Você utiliza os quimioterápicos já existentes, capazes de destruir células, mas invés de administrá-los ativos sistemicamente, levando à efeitos colateriais, eles são administrados inativos. Porém, eles foram modificados para serem sensíveis à certos espectros de luz – quando uma luz de frequência específica é incidida sobre ela, através de lasers ou outras técnicas, o fármaco torna-se ativo. Naturalmente, os médicos farão essa incidência apenas no tecido alvo – se estão tratando um câncer de fígado, incidirão luz sobre o fígado.

Isso significa que a droga só será ativa no fígado, e só causará danos às células do tecido – e a quimioterapia só danifica células que estão com uma alta taxa de crescimento. Logo, se a ativação é apenas local, geralmente as únicas células que estão com uma alta taxa de crescimento na região do tumor será o próprio tumor. E mesmo que não seja, essa técnica ainda restringe muito os efeitos colaterais.

Ou seja, a fotofarmacologia traz duas grandes vantagens: A primeira é que seu efeito é localizado, reduzindo muito a presença de efeitos colaterais. A segunda é que é muito mais rápido e fácil do que tentar desenvolver um medicamento novo do zero – afinal, tudo que os cientistas precisam fazer é pegar um fármaco já existente, que já se sabe que é eficaz, e torna-lo sensível à luz e capaz de ser ativado por ela.

2 – Imunoterapia

Outra estratégia que já comentamos aqui no Mural, lá nos primórdios do site. A imunoterapia, porém, também usa de diversas estratégias. Seu principio primordial é tentar fortalecer o nosso sistema imune para que ele próprio seja capaz de detectar e eliminar o tumor (http://www.cancer.net/navigating-cancer-care/how-cancer-treated/immunotherapy-and-vaccines/understanding-immunotherapy) – o  primeiro passo para o câncer se estabelecer como doença é ser capaz de evadir o sistema imune, caso contrário, o tumor seria rapidamente destruído. Restaurar a capacidade do sistema imune reconhece-lo, ou ampliar sua capacidade de destruí-lo, pode causar regressões chocantes.

A imunoterapia pode ser feita das mais diversas formas. Pode-se usar anticorpos monoclonais – nesse caso, os anticorpos são criados para se ligarem ao câncer através de alguns marcadores específicos ao câncer, e eles “sinalizam” para o sistema imune que aquelas são células cancerígenas que devem ser destruídas. Vacinas contra câncer também são possíveis, injetando antígenos (Ou seja, proteínas) específicas do câncer para que o próprio corpo produza anticorpos e resposta imune à esses marcadores, quando o câncer se desenvolver.

A mais impressionante e peculiar estratégia talvez seja a terapia de células T. Células T são células essenciais na resposta imune celular, com alguns tipos tendo a capacidade de destruir células que precisem ser destruídas – como, por exemplo, células cancerígenas. A terapia de células T consiste em extrair células T do sangue do paciente e efetivamente “treiná-las” a reconhecer o câncer através da implantação de um receptor específico nessas células. Então essas células são reproduzidas em laboratório até os cientistas possuírem um verdadeiro exército delas, que é quando elas serão reinseridas na circulação do paciente. Uma vez de volta no organismo, elas irão caçar e destruir as células cancerígenas.

Portanto, temos muitos motivos para termos esperanças – esses são apenas dois avanços de um mundo de conquistas.

A ciência e os cientistas querem o seu bem. Se eles foram contra a suposta pílula milagrosa, é porque sabem que ela estava recebendo uma atenção indevida. Mas, longe dos olhos da mídia tradicional, a luta continua sempre firme, e avanços surgem todos os dias.

Então vamos focar em dar suporte aos novos tratamentos que estão se destacando dentro da ciência, em publicações científicas internacionais, invés de cair no conto dos jornais, pode ser?

sobre-o-autor-lucas-rosa

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