Transplante de fezes pode aumentar expectativa de vida

Alguns relacionamentos são curtos, outros são para a vida inteira – como a parceria mutuamente benéfica entre uma pessoa e as trilhões de bactérias de seu intestino. Mas conforme você e sua microbiota envelhecem juntos, essa parceria pode acabar saindo dos eixos. Um recente estudo com ratos sugere que o envelhecimento pode, de fato, alterar nossa flora intestinal – e em alguns casos, um transplante de fezes poderia consertar as coisas.

Transplantes de microbiota fecal, no qual bactérias intestinais de uma pessoa saudável são usadas para tratar um enfermo, não são novidade; o caso mais antigo que se conhece remonta ao século IV na China, quando um médico chamado Ge Hong disse a seus pacientes que poderiam se curar da diarreia comendo fezes de um vizinho sadio. Mais recentemente, médicos demonstraram em ensaios clínicos que o transplante de fezes é efetivo contra infecções de Clostridium difficile, uma bactéria associada a doenças gastrointestinais; também se tentou usar a técnica para doenças inflamatórias do intestino e constipação.

A bióloga Clea Bárcena e seus colegas na Universidade de Oviedo, na Espanha, sabiam que envelhecimento e doenças relacionadas a idade geralmente andam de mãos dadas com a disbiose, condição na qual o equilíbrio entre as espécies de bactérias do intestino é perturbado. Então, decidiram examinar a flora intestinal de 5 crianças com progéria, uma desordem genética que causa envelhecimento prematuro e morte. Eles também examinaram a microbiota de mais de 12 ratos geneticamente modificados para exibir sintomas parecidos com o da progéria.

Tanto as crianças quanto os ratos apresentaram disbiose severa conforme a doença progredia. Mas os pesquisadores não encontraram sinal de disbiose num grupo de dezessete centenários, pessoas consideradas de envelhecimento “bem-sucedido”. Os centenários apresentaram microbiota sadia, muitos com grande quantidade de bactérias de um filo específico chamado Verrucomicrobia.

Centenários no ensaio “Aging gracefully”, de Karsten Thormaehlen

Em seguida, os pesquisadores queriam ver se mudar a microbiota de ratos com sintomas de progéria faria diferença no progresso da doença. Eles retiraram bactérias das fezes de ratos sadios e colocaram nos intestinos de ratos doentes. Em poucas semanas, os sintomas começaram a diminuir. Diferentemente dos ratos não tratados, eles não perderam tanto peso nem apresentaram baixas taxas de açúcar no sangue – sintomas comuns de progéria. Os ratos tratados também viveram 15% mais, em média, do que os não tratados (160 e 141 dias, respectivamente), reportaram os pesquisadores à Nature Medicine.

“A possibilidade de aumentar a expectativa de vida é realmente impressionante”, diz Bárcena, agora pós-doutoranda no Wellcome Sanger Institute, em Hixon, Reino Unido.

Porém, quando ratos sadios receberam transplante fecal de ratos com progéria, houve mudanças negativas. Eles não apresentaram sintomas típicos da doença, como envelhecimento precoce, mas ganharam sobrepeso e apresentaram metabolismo mais lento.

Uma espécie de bactéria do filo Verrucomicrobia, Akkermansia muciniphila, parece ter papel importante num processo de envelhecimento sadio, dizem os pesquisadores, possivelmente aumentando a quantidade de ácidos biliares secundários no intestino. Essa espécie é mais comum em centenários e menos em ratos com progéria. Quando os pesquisadores deram doses somente com essa espécie para ratos com progéria, a expectativa de vida também aumentou.

Bactéria isolada de fezes humana (STEVE GSCHMEISSNER/SCIENCE SOURCE)

Esses resultados, diz Bárcena, podem um dia ajudar pesquisadores a desenvolver tratamentos com probióticos específicos para condições relacionadas a envelhecimento. O próximo passo, ela acrescenta, será identificar outras espécies benéficas de bactérias – e descobrir como elas funcionam em modelos animais e humanos.

“Esse é um estudo interessante”, diz Heidi Zapata, médica na Universidade de Yale, que tem escrito sobre a flora intestinal no envelhecimento e doenças relacionadas. Mas ela pondera que é difícil traduzir os resultados com ratos para humanos. “Eu não acho que estejamos perto de ter uma pílula que possamos simplesmente engolir”, ela diz. “Mas dada a importância da microbiota, esse estudo pode vir a abrir portas para futuras possibilidades”.

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Traduzido de: Science

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