Por que Bolsonaro está Errado a Respeito das Universidades Públicas (e Investimento Público em Ciência)

Em face dos últimos acontecimentos na política brasileira, entrou em voga a discussão a respeito do valor da universidade pública brasileira, e do financiamento público da ciência brasileira. Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “nas universidades, você vai na questão da pesquisa, você não tem, poucas universidades têm pesquisa, e, dessas poucas, a grande parte tá na iniciativa privada, como a Mackenzie em São Paulo, quando trata do grafeno”, conforme relatado pelo Jornal GGN.

Essa afirmação chega a causar choque em quem tem um mínimo de familiaridade com o funcionamento da ciência brasileira. A impressão que passa é que o Presidente não possui o menor compromisso com a verdade, jogando ao vento declarações sobre assuntos dos quais ele não possui sequer domínio básico. A impressão que fica é que só existe a pesquisa que o Presidente conhece – e essas são poucas.

Essas declarações estão aliadas à cortes nas bolsas de pós-graduação do Brasil, o que,na prática, é o equivalente ao Brasil estar demitindo seus cientistas, ou impedindo que sejam contratados.

Vamos aos fatos: Mais de 90% de toda a produção científica brasileira é realizada nas universidades públicas. As universidades privadas brasileiras, via de regra, não possuem nem o interesse nem os meios para desenvolverem pesquisa. Obviamente, há exceções, mas no geral, essa é a realidade; as instituições privadas brasileiras são mais focadas na formação de profissionais, ao passo que o mundo realmente acadêmico fica nas universidades públicas. No exterior, a realidade é um pouco diferente. Muitos institutos privados nos EUA e Europa, diferente dos brasileiros, possuem uma tradição de pesquisa científica, e por isso acabam por se destacar. Dito isso, mesmo nesses países as universidades públicas tem papel relevante (principalmente na Europa, onde boa parte das melhores universidades são públicas).

E, talvez mais importante, o financiamento público é sempre crucial, mesmo nos institutos privados. Vejam os gráficos abaixo.

Como podem ver, em todo o mundo, o Estado é o principal financiador do desenvolvimento científico. E existe motivo para isso.

A ciência pode ser dividida essencialmente em dois tipos: A Ciência “Básica” (ou “de base”) e a Ciência “Aplicada”. A Ciência Aplicada é aquela que a maioria das pessoas pensam quando ouvem a palavra “ciência”: desenvolver computadores, robôs, armas, remédios, cosméticos, enfim, produtos e tecnologia. Essa é a ciência que movimenta o mundo, que melhora a vida das pessoas, e que gera muito dinheiro pra muita gente. A Ciência Básica, por sua vez, é a ciência que busca gerar conhecimento e entender o mundo. É a ciência que estuda o comportamento dos animais, os mecanismos moleculares das doenças, as origens do universo.

Se a Ciência Aplicada é a ciência que gera dinheiro, então é ela que importa, certo?

Errado.

Eu poderia argumentar sobre a importância filosófica da ciência – que, na realidade, a ciência existe para gerar conhecimento e não dinheiro – e mais um milhão de coisas, mas eu não vou. Porque no fim do dia, idealismo não bota comida na mesa. A sociedade financia a ciência, e a sociedade quer retornos!

E é justamente por isso que o Estado PRECISA ser o principal investidor em ciência, e principalmente em Ciência Básica.

Confuso? Eu explico.

A Ciência Básica e a Ciência Aplicada possuem uma relação muito íntima, uma mão de duas vias. Uma depende da outra.

Peguemos como exemplo o computador ou celular que você está utilizando. Toda a tecnologia da informática depende profundamente do domínio das propriedades do electromagnetismo. Para isso, foi necessário entendermos como o espectro electromagnético. O pesquisador James Clerk Maxwell foi um dos principais responsáveis por esse avanço. Mas Maxwell não tinha computadores, rádios e televisões em mente enquanto fazia as suas pesquisas; ele só queria entender como a eletricidade afetava o magnetismo, e vice-versa.

Ele fazia ciência básica. E somente com suas descobertas é que foi possível aplicar esse conhecimento na forma de tecnologia.

A Ciência Básica é o combustível da Ciência Aplicada. Se a Básica sumir, a Aplicada não existe.

E, naturalmente, a Ciência Aplicada “devolve” esse favor servindo como a “garota-propaganda” da ciência. O contribuinte paga seus impostos e aceita que eles sejam alocados em ciência porque ele sabe que a ciência lhe deu computadores, carros e medicina avançada. Claro, ocasionalmente ele ouve falar de algumas coisas estranhas – pesquisas que “só” estudam o comportamento de formigas ou um vírus obscuro que não causa nenhuma doença – e se pergunta se isso não é um desperdício de dinheiro. Mas ele acaba esquecendo e deixando os cientistas fazerem o seu trabalho, crente de que eles sabem o que estão fazendo e vão trazer melhorias para a sua vida.

É essa confiança que precisa ser mantida.

“Mas Lucas”, ouço você perguntar, “De fato, não é desperdício de dinheiro?”

Então, não.

Você nunca sabe de onde a próxima grande descoberta vai sair. Os Cientistas da Ciência Aplicada estão sempre de olho no que os da Ciência Básica fazem, em busca de novas ideias, e às vezes elas surgem de locais inesperados. Talvez a saliva de um lagarto possua uma substância que possa ser útil contra o diabetes, ou um vírus que todos consideravam inofensivos na realidade causa uma epidemia de microencefalia, e estudos de décadas atrás – antes considerados “inúteis” por só descreverem as propriedades do vírus puramente pelo conhecimento, se tornem cruciais para desenvolver uma resposta rápida e eficiente. A história da ciência é cheia de casos assim.

Pode parecer loucura, mas a forma mais eficiente de gerar desenvolvimento é simplesmente jogar dinheiro na ciência e deixar que a magia aconteça. Deixe os cientistas trabalharem, e coisas boas surgirão.

“Tá, mas porque esse dinheiro precisa ser público?

Porque nenhum empresário em sã consciência vai patrocinar uma expedição de cientistas para que eles investiguem a saliva de um lagarto. Sim, talvez o próximo remédio contra a diabetes surja de lá – ou talvez não tenha nada de especial. E sabe Deus quanto tempo vai levar para ter esse retorno, se ele vier um dia. A iniciativa privada não vai querer correr esse risco, e nem é razoável esperar que ela o assuma.

Só que alguém precisa bancar os cientistas, ou o remédio continua dentro da boca do lagarto. Antigamente, essas descobertas eram feitas por ricaços que, já tendo a vida feita, podiam fazer ciência por hobby. Mas isso é um puta desperdício de cérebros humanos. Por isso foi instituído o sistema que temos hoje, onde novos cientistas fazem Mestrado e Doutorado, e recebem uma bolsa de instituições públicas que, efetivamente, é o seu salário, para pesquisarem o que tiverem interesse. Esses cientistas, podendo se dedicar à isso de maneira profissional, conseguem produzir muito conhecimento. Governos bancam laboratórios, reagentes, equipamentos, e os cientistas fazem ciência. Inevitavelmente, esse conhecimento acumulado se transforma em algo útil para todos.

Esse é o método que tem funcionado há várias décadas, com excelentes resultados. Não parece haver uma alternativa melhor. E, mesmo se houver, certamente não será cortando bolsas de pós-graduação e reduzindo as verbas das agências de fomento científico que iremos alcançá-lo.

Poucas coisas nessa vida são mais comprovadas do que a relação entre investimento em ciência e desenvolvimento econômico. É literalmente uma receita mágica: invista dinheiro em ciência e veja seu PIB crescer. Se o país se encontra em momento de crise, cortar dinheiro da ciência é a decisão mais burra possível. É justamente a ciência que pode tirar o país do buraco – a ciência das universidades públicas, financiadas com dinheiro público.

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