Como as eleições de hoje lembram a política do passado?

De acordo com historiadores, debates políticos na Roma Antiga eram conduzidos com grande rigor e ataques pessoais, que de forma nenhuma deixavam a desejar à maneira com que alguns discursos são disseminados hoje na internet. “Os ataques, também conhecidos como invetivas ou injúrias, eram uma parte integral da vida pública dos senadores da República Popular Romana,” explica o historiador Prof. Dr. Martin Jehne da Technishe Universität Dresden (Universidade Técnica de Dresden, Alemanha). Na 52ª Reunião de Historiadores em Munique, em Setembro, em uma palestra sobre os abusos e insultos desde a antiguidade até os dias de hoje, o professor falará a respeito da cultura do conflito na sociedade romana. “Os muitos ataques e depreciações de um determinado inimigo político eram o que mantinham um partido unido e recebendo atenção, entretenimento e indignação – muito similar aos insultos, ameaças e discursos de ódio que vemos na internet hoje.” De acordo com Jehne, as políticas altamente hierárquicas da Roma Antiga pareciam selvagens, mas não eram desregradas. “Políticos insultavam uns aos outros sem piedade. Ao mesmo tempo, na assembléia popular, eles tinham de aceitar o povo também insultando-os sem que fossem permitidos revidar – um recurso que, mesmo onde uma profunda divisão entre os ricos e pobres era vista, limitava as fantasias onipotentes da elite.”

Mas os políticos e o povo dificilmente tratavam o abuso como uma coisa aceitável. Mesmo que a comparação com o que vemos nos dias de hoje possa ser parcialmente enganosa, Jehne comenta: “Uma certa robustez romana em lidar com comunidades abusivas como a Pegida ou a AfD (partidos alemães de extrema-direita) poderia tornar-se mais factual, e ajudar a reduzir o seu nível de excitação”.

De acordo com o que foi descoberto sobre a Roma Antiga, aguentar e ignorar insultos podiam ter um efeito politicamente estabilizador no fim das contas. Esse tipo de prática inclusive podia ir bem longe: “O famoso arauto e político Marcus Tullius Cicero (106-43 BC), por exemplo, ao defender o seu apoiador Sestius não se fez de rogado em acusar o seu opositor Clodius de praticar incesto com seus irmãos e irmãs,” disse o professor Jehne. “Clodius, em resposta a isso, acusou Cicero de se comportar como um rei quando ocupava a posição de cônsul. Uma acusação bem séria, já que o conceito de realeza era visto com maus olhos pela República.” Portanto, como os historiadores enfatizam, dificilmente as disputas políticas tinham limites. Isso difere dos dias de hoje onde estuda-se muito o limite do que é permitido nos debates, nas ruas ou na web. “Os romanos não pareciam se importar tanto. Havia o crime de perjúrio, de injustiça, mas dificilmente havia qualquer acusação”.

“Crimes de honra”

De acordo com os estudiosos do assunto, os romanos da cidade eram orgulhosos dessa sagacidade mordaz em detrimento e às custas dos outros: “Isso era considerado uma importante parte da urbanitas, o meio de comunicação entre os metropolitanos, em contraste com o modo de comunicação das pessoas nas periferias. Quando você era alvo de alguma injúria você deveria aceitar isso e, se possível, também revidar.” Eles fizeram da calúnia uma forma de orgulho, então. Era normal que eventuais oponentes mais tarde até trabalhassem juntos e voltassem a manter o contato normalmente. O clima político permaneceu razoavelmente dentro dos padrões até então: assassinatos em nome da honra eram cometidos apenas dentro de alguma circunstância excepcional, como em uma guerra civil.

O professor Jehne comenta que o fato de que as pessoas eram protegidas contra o tratamento mordaz dos senadores e seus comentários em cenários políticos mas eram elas próprias permitidas insultar e denegrir a elite política mostra que os políticos da República reconheciam a assembléia popular como um poder político. Se medido nos padrões de hoje, o povo daquela época tinha uma taxa de cidadãos com direito ao voto de menos de 3%, mas ainda assim os senadores viam nessas pessoas a autoridade sobre todo o resto da comunidade. Em um debate a respeito das leis de agricultura em 63 AC, por exemplo, Cicero tentou persuadir o povo a mudar de opinião. Mas caso ele não conseguisse o feito, ele mesmo prometeu conceder ao povo o que era pedido. Aqueles que questionavam o público e seu poder de decisão arriscavam enfrentar uma séria revolta popular. No entanto, enfatizou Jehne, esse poder nas mãos do povo só era válido dentro de arenas de discussões políticas oficiais. Nas ruas, os senadores ainda tinham autoridade sobre o “povo comum”, e requeriam até mesmo que espaço fosse aberto para que passassem nas ruas.

“Um pouco mais de calma”

Desde que ele começou a investigar os abusos e insultos que a República Romana sofria, Jehne ficou mais tranquilo quanto aos debates que ocorrem nas mídias sociais. “A maneira com que comunidades abusivas como a Pegida ou AfD passam dos limites para integrar os seus apoiadores é amplificada pela ressonância da mídia. Minha pesquisa, no entanto, me levou a reduzir o meu nível de preocupação e resposta quanto a esses novos insultos no dia presente – de qualquer modo, não foi por causa da difamação que Roma caiu.”

Na 52ª Reunião de Historiadores em Munique, junto com os historiadores de Dresden (Prof. Dagmar Ellerbrock e Prof. Gerd Schwerhoff, o Prof. Dr. Martin Jehne irá ministrar a palestra “Divisões de Insulto? Excluindo e Incluindo Dinâmicas de Abuso na História Antiga e Contemporânea” na quinta feira, 27 de setembro. Em adição a isso, serão tratados e analisados casos de abuso histórico entre o clero e as pessoas da Idade Média cristã, abusos entre filósofos, a situação dos Estados Unidos durante a década de 60 e a África colonial. O pano de fundo é a pesquisa do Centro de Pesquisa Colaborativa 1285 “Invectividade: Ramificações e Dinâmicas do Desrespeito” na Universidade Técnica de Dresden, onde o professor Jehne lidera o assunto “Invectividade na comunicação ritualizada da era romana e imperial”.

“Sociedades Divididas” –  52ª Reunião de Historiadores Alemães

Do dia 25 ao 28 de Setembro será tratado o tema “Sociedades Divididas”. Três mil e quinhentos cientistas da Alemanha e do exterior trocarão pontos de vista a respeito dos assuntos estudados e tópicos atuais de pesquisa em mais de 90 seções no maior congresso de estudos humanos da Europa. Entre os palestrantes convidados estão Wolfgang Schäuble, Christopher Clark, Herfried Münkler, Ulrich Raulff, Aladin El-Mafaalani e Birgit Schäbler. Como país convidado, a Holanda será representado pelo presidente parlamentar Khadija Arib e pelo autor Geert Makb. Em várias palestras onde casos serão estudados, as seções abordarão as divisões éticas, econômicas, sociais e religiosas que desafiam o presente e já desafiaram o passado. Entre os tópicos discutidos estarão, por exemplo, debates a respeito dos refugiados desde a antiguidade até o presente, a exclusão social, legal e econômica de determinados grupos ocorrendo em diferentes épocas, o dilema sobre a Paz de Vestfália ser ou não um modelo para o Oriente Médio, divisões econômicas na Alemanha como por exemplo as famílias Hartz IV e pais hipercontroladores, e a instrumentalização política de imagens históricas nas sociedades divididas de hoje, como a Catalunha, Escócia e Kosovo.

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Fonte da matéria: EurekAlert!
Fonte da imagem: The Philology Institute

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