Em fase de testes, novo antibiótico pode ser uma poderosa arma contra as bactérias resistentes

Texto traduzido de autoria de Robert Service

A última linha de defesa do mundo contra doenças causadas por bactérias acabou de ganhar uma novo guerreira: a vancomicina 3.0. Sua predecessora – a vancomicina 1.0 – tem sido usada desde 1958 para combater infecções perigosas como as produzidas pela bactéria Staphylococcus aureus resistente à meticilina (variante conhecida pela sigla SARM). Porém, com a ascensão de bactérias resistentes tendo reduzido sua eficácia, os cientistas tem desenhado versões mais potentes da droga – como a vancomicina 2.0. Agora, a versão 3.0 tem uma exclusiva abordagem tripla para matar as bactérias, que pode dar aos médicos uma poderosa nova arma contra bactérias resistentes a outros fármacos e ajudar os investigadores a produzir antibióticos mais duráveis.

“Isso é muito especial” diz Scott Miller, químico da Universidade de Yale, não envolvido no novo trabalho. “É realmente a culminação de um esforço de décadas”.

A vancomicina, por muito tempo considerada uma “droga de último recurso” (isto é, a ser usada se todo as as outras falhassem) mata ao prevenir a construção de paredes celulares por parte da bactéria.Ela se adere à fragmentos proteicos construtores de paredes celulares denominados péptideos, em particular aqueles que terminam com duas copias do aminoácido D-alanina (D-ala). Mas as bactérias evoluíram. Muitas agora trocam uma D-alanina por um ácido D-Láctico (D-lac), reduzindo drasticamente a habilidade da vancomicina de se aderir ao seu alvo. Hoje, essa resistência se espalhou tanto que infecções como as motivadas pelo Enterococcus resistente a vancomicina (ERV), e a Staphylococcus aureus resistente a vancomicina (SARV) estão se tornando mais comuns. De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, dos EUA, cerca de 23.000 americanos morrem de 17 tipos de infecções resistentes a antibioticos por ano (apesar que é difícil estimar o quanto pode ser atribuído à resistência à vancomicina).

Para resolver o problema com o D-Láctico, pesquisadores liderados por Dale Borger, químico no Instituto de Pesquisa Scripps em San Diego, na Califórnia, começaram a sintetizar novas versões da vancomicina que se ligam aos péptideos que terminam em D-alanina e D-Láctico. Isso aconteceu em 2011. Enquanto isso, outros grupos desenvolveram novas maneiras de matar as bactérias com vancomicina: uma alteração encontrou um novo jeito de deter a construção das paredes celulares, enquanto outra causou vazamentos na membrana externa, levando à morte celular.

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Os antibióticos são ferramentas importantes no combate as doenças causadas por bactérias, mas é importante evitar o abuso.

Agora, Boger e seus colegas juntaram todas as três armas em um só análogo da vancomicina. Esse novo antibiótico é pelo menos 25.000 vezes mais potente contra micróbios como os ERV e o SARV, eles declaram no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences. Além disso, quando a equipe de Boger testou a bactéria resistente a vancomicina contra o novo análogo de três partes, os micróbios foram incapazes de evoluir uma resistência mesmo depois de 50 tentativas. Muitos antibióticos começam a falhar depois de apenas algumas rodadas de testes. Isso sugere que o novo composto pode ser bem mais durável que os antibióticos atuais, sugere Boger.

“Organismos simplesmente não podem encontrar uma maneira de lidar com três mecanismos independentes de ação simultaneamente” diz Boger. “Mesmo se eles achassem uma solução para um deles, os organismos seriam mortos pelos outros dois”.

Miller agrega que antibióticos são frequentemente encontrados por tentativa e erro, quando pesquisadores testam um novo composto para ver se ele detém o crescimento bacteriano. Pelo contrario, este trabalho mostra o poder de desenvolver intencionalmente novos antibióticos para atacar os micróbios onde eles sejam fracos. “Conseguir que algo faça duas coisas através de um modelo planejado é difícil. Conseguir que faça três coisas  é ainda mais difícil.”

Todavia, Boger adverte que o novo composto ainda não está pronto para o teste com seres humanos. Como próximo passo, ele e seus colegas planejam diminuir as cerca de 30 etapas químicas necessárias para a produção do novo composto, na esperança de tornar sua fabricação mais barata. Logo, eles irão testar sua droga em animais e finalmente em humanos. Se ela superar esse desafio, a ultima linha de defesa da humanidade contra as infecções perigosas se tornará consideravelmente mais forte.

Referência

Revista Science

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