As algas de Anna Atkins, pioneira da fotografia

As relações entre as ciências e as artes podem ser muito frutíferas. O desenvolvimento da perspectiva por parte dos artistas do século XV, por exemplo, seria para o historiador da ciência Pierre Thuillier um dos responsáveis pela nova concepção do tempo e espaço que foi gerada no Renascimento e desembocaria na chamada Revolução Científica da Idade Moderna, com os trabalhos de Galileu e Newton. Thuillier também discute a importância da obra de Leonardo da Vinci, com as suas impressionantes ilustrações anatômicas. Nessa área, não se pode esquecer o De humani corporis fabrica, de Andreas Vesalius, que revolucionou a anatomia, e contava com magnificas gravuras, realistas e detalhadas.Um dos livros considerados pioneiros na zoologia moderna, o Historia animalium, de Conrad Gessner, foi uma das obras pioneiras da zoologia moderna. Essa enciclopédia de historia natural, a mais lida de sua época, inovou ao incorporar ilustrações, entre elas as de artistas como Lucas Schan, responsável pelos desenhos de pássaros, além da famosa xilogravura em que o alemão Albrecht Dürer retrata um rinoceronte.

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Uma das ilustração do De Humanis corporis fabrica

A ciência, por sua vez, foi fundamental no desenvolvimento da fotografia, que é uma técnica, além de um arte. Os experimentos com a câmera obscura e a descoberta dos efeitos que a exposição a luz causava em certos produtos químicos permitiram que no início do século XIX se elaborassem as primeiras fotografias.

Uma das pioneiras nessa nova técnica seria a inglesa Anna Atkins. Com a sua mãe tendo morrido por problemas decorrentes do parto, foi criada pelo pai, John George Children, um zoólogo e químico, recebendo  assim instrução científica. A sua casa era frequentada pelos mais famosos químicos ingleses da época e ela ajudou seu pai, produzindo ilustrações detalhadas para uma tradução que ele tinha feito de uma obra de Lamarck.

Seu pai e seu marido, John Pelly Atkins, eram amigos de William Henry Fox Talbot, considerado um dos inventores da fotografia. Anna aprendeu a técnica com Talbot, e adquiriu uma câmera em 1841. Em 1842, outro amigo da família, John Herschel, astrônomo (como o pai) e matemático, inventou um processo conhecido como cianótipo, que pode ser descrita como uma “impressão monocromática em tons de azul”. Logo, ela dominou o processo, aplicando-o ao “registro de algas, fazendo fotogramas por contato, pressionando algas ressecadas diretamente sobre o papel sensitizado.” Assim, em 1843, ela publicaria aquele que seria considerado o primeiro livro ilustrado com fotografias da história. Apesar de ser uma edição própria, de tiragem muito pequena (17 exemplares), ela antecedeu em um ano o livro de Talbot, The Pencils of Nature, o primeiro a ser comercializado.

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Ilustração de um exemplar de Cystoseira ericoides, conhecida atualmente pela denominação de Cystoseira tamariscifolia

O livro de Atkins contém 307 imagens de algas nativas das águas da Grã-Bretanha e uma das raríssimas cópias foi recentemente adquirida pelo Rijksmuseum, o museu nacional da Holanda, pelo valor de € 450.000 (mais de R$ 1.600.000, na cotação atual). “Nós estamos muito gratos com esta maravilhosa aquisição do primeiro livro ilustrado com fotografias, pela primeira fotógrafa, o trabalho de Anna Atkins está na fronteira entre a arte e a ciência. Além da sua importância histórica, as imagens de Atkins são caracterizadas pela sua beleza atemporal, que parece contemporânea, pela abstração das silhuetas no papel fotográfico”, declarou o diretor do museu, Taco Dibbits.

Uma cópia digitalizada da obra de Anna Atkins pode ser vista no site da Biblioteca Pública de Nova York:

https://digitalcollections.nypl.org/collections/ocean-flowers-anna-atkinss-cyanotypes-of-british-algae#/?tab=about

Referencias

sobre-o-autor-alejandro-rico

 

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