A Definição Tradicional de Conhecimento e a sua Insuficiência

A DEFINIÇÃO TRADICIONAL DE CONHECIMENTO

 

É possível saber coisas diversas. Pode-se conhecer uma ou outra pessoa por familiaridade direta, como conhecer uma pessoa, por exemplo, ou saber como fazer um apetitoso prato para um jantar especial. Da mesma maneira, pode-se saber como andar de bicicleta ou levantar um muro, ou seja, um ‘saber como’ em geral. Ainda assim, o conhecimento de que tratarei aqui é o conhecimento, a grosso modo1, de um ‘fato’, como:

 

(1) Pedro sabe que o Brasil foi descoberto em 1500.

 

Uma das abordagens mais tradicionais a este tipo de conhecimento é a análise tripartida. Esta análise afirma que há três condições para o conhecimento, mais especificamente: o conhecimento é uma crença2  verdadeira  justificada. O conhecimento precisa ser sobre uma sentença verdadeira porque não se pode saber de algo que é falso, como em (1’). O conhecimento precisa ser uma crença, uma vez que não se poderia afirmar que (1) e dizer que Pedro não acredita que o Brasil foi descoberto em 1500. Em outras palavras, é um contrassenso afirmar que eu sei de algo, embora eu não acredite nesse algo, como é visível em (1’’). Conhecimento, desse modo, implicaria crença. O conhecimento precisa ser justificado, uma vez que alguém poderia crer em um enunciado verdadeiro sem ter nenhum motivo para tanto, como em (1’’’). Tratar-se-ia de sorte o fato de alguém crer em algo verdadeiro e nada mais.

(1’) Pedro sabe que o Brasil foi descoberto em 2017

(1’’) Pedro sabe que o Brasil foi descoberto em 1500, mas ele não crê que o Brasil foi descoberto em 1500.
(1’’’) Pedro sabe que o Brasil foi descoberto em 1500, mas  a sua crença de que o Brasil foi descoberto em 1500 não é justificada.

 

Mais simplesmente, podemos generalizar a ideia de que um agente S sabe que p se ocorre o seguinte:

 

Definição tripartida3:

  1. p;
  2. S crê que p;
  3. A crença de S em p é justificada.

Consiste nessa generalização a forma mais conhecida do que se chama de definição tripartida de conhecimento ou definição tradicional de conhecimento.

 

Um dos Contraexemplos de Edmund Gettier (1963)

 

Edmund Gettier, em um artigo intitulado ‘Crenças verdadeiras justificadas são conhecimento?’ (Is Justified True Belief Knowledge?), argumenta contra a descrição tradicional de conhecimento anteriormente descrita. Essa abordagem, embora destaque aspectos necessários para o conhecimento, não destaca os aspectos suficientes para o conhecimento. Em outras palavras, embora todo conhecimento, de fato, aparentemente satisfaça esses critérios, existem outras coisas que não são conhecimento, mas que satisfazem também os três aspectos.

Um exemplo: definimos uma cadeira como algo que serve para se sentar. Uma cadeira necessariamente serve para se sentar, mas não é a única coisa que tem esse propósito e, portanto, não é uma descrição que só se refira a cadeiras. Algo que tem esse propósito também inclui bancos, por exemplo, mas um banco não é uma cadeira. Daí a falha da definição, pois esperamos que uma descrição definitória se refira àqueles objetos e somente àqueles objetos.

Um dos casos de gettier consiste no seguinte: imagine que você está em uma entrevista de emprego e seu concorrente, que chamaremos de Jones, está certamente sendo contratado, além de ter dez moedas no bolso. Você sabe que ele está sendo contratado porque o dono da empresa que está realizando a seleção lhe assegurou. Você também sabe que ele tem dez moedas no bolso porque teve a oportunidade de contar. Disso ele infere o segiunte:

 

(2) Jones será contratado para a vaga e tem dez moedas no bolso.
(3) O homem que tem dez moedas no bolso será contratado para esta vaga.

 

(3) é o resultado de uma inferência válida a partir de (2). Você está justificado ao crer em (2) e em (3). Suponhamos também que, na verdade, embora o dono da empresa tenha lhe assegurado que Jones ganharia o emprego, você é quem ganha o emprego de fato. Além disso, você também tem dez moedas no bolso. Embora (3) seja verdadeiro, que você creia em (3) e que sua crença em (3) seja justificada, isso não parece contar como conhecimento, de fato. Nisso consiste o contraexemplo.

Existe, portanto, um caso que os três critérios abrangem, mas que, de fato, não constitui conhecimento. A definição tradicional de conhecimento como fora apresentada é insuficiente, portanto, e não é suficientemente restritiva para evitar o caso apresentado. Desse modo, Gettier conclui a insuficiência da definição tripartida de conhecimento.

 

Uma observação é a de que essa definição continua sendo bastante produtiva em termos de debates que envolvem conhecimento fora da área de epistemologia. Embora seja ela insuficiente, por vezes é suficiente para dialogar com pessoa X ou Y para um ou outro debate que não seja especificamente sobre a natureza ou definição de conhecimento. Digo isso para evitar questões como ‘Por que falar disso, se está errado?’. Trata-se de uma definição simples de um conceito que envolve grandes complexidades. Além disso, aparentemente a epistemologia contemporânea tomou um rumo que parte desta definição, daí a sua importância.

Notas de Rodapé
1. Um esclarecimento aos mais experienciados: é comumente tido que o objeto de uma crença é uma proposição, que tradicionalmente pode ser identificada com o portador não linguístico das condições de verdade. Para evitar discussões relativas à definição de proposição, que é um problema filosófico por si só (e é dos grandes!), refiro-me simplesmente a fatos para uma introdução mais leve ao tema. Não entendo isso como um prejuízo, uma vez que a maior parte dos textos que abordam este tema não abordam a noção de proposição (v. Gettier, 1963).
2. É importante destacar que alguém ter uma crença, para os propósitos deste texto, pode ser tido simplesmente como alguém atribuir verdade a um determinado enunciado. Não significa, portanto, que ele seja verdadeiro.
3. 
Segundo Gettier, essa definição pode ser vista em algumas obras de Platão, como no Teeteto 20,I e em Mênon, 98.

Referências

 

DANCY, Jonathan. Introduction to Contemporary Epistemology. Hoboken: Wiley-blackwell, 1985.


GETTIER, Edmund L.. Is Justified True Belief Knowledge? Analysis, Oxford, v. 23, n. 6, p.121-123, jun. 1963. JSTOR. http://dx.doi.org/10.2307/3326922. Disponível em: <http://www-bcf.usc.edu/~kleinsch/Gettier.pdf&gt;. Acesso em: 8 out. 2017.

 

Leitura Recomendada

 

  • O artigo de Gettier se encontra em português no seguinte link: <http://criticanarede.com/epi_gettier.html>. Trata-se de três páginas de leitura, começando com as definições tripartidas de conhecimento para chegar em seus contraexemplos. No artigo há o contraexemplo que eu não abordei.
  • A introdução à epistemologia pela editora UNESP do professor Luiz Henrique de Araújo Dutra.
  • Recomendo a leitura do livro do Jonathan Dancy citado nas referências. Há uma tradução para o espanhol.

 

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