Benefícios da psicoterapia em sujeitos com estresse pós-traumático

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Antes de tudo, precisamos explicar a você leitor do que se trata tal o problema. O conceito de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) surgiu e começou a ser melhor discutido através do atendimento aos indivíduos sobreviventes de guerras. Sua categorização como entidade diagnóstica ocorreu em 1980 na 3a. Edição da DSM.

O TEPT é definido pela psicopatologia como um distúrbio da ansiedade caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais. “Os eventos traumáticos que precipitam esse transtorno são estremos” (HOLMES, 1997, p.91). E são decorrentes após uma pessoa ter sido vítima ou testemunha de atos violentos ou de situações traumáticas que representa ameaça à sua vida ou a de terceiros, como por exemplo: desastres naturais, desastres acidentais e desastres deliberados. Embora os estudos tenham se voltado aos sobreviventes das guerras, não podemos limitar esse transtorno somente a indivíduos que passaram por esse transtorno após combate.

O transtorno caracteriza-se pelo surgimento de sintomas específicos após a exposição a um evento traumático, os quais compõem a seguinte tríade de dimensões psicopatológicas: (1) revivescência do trauma; (2) esquiva de estímulos que relembrem o evento traumático e distanciamento afetivo; e (3) hiperestimulação autonômica (MAURAT E FIGUEIRA, 2001 apud PERES; NASELLO, 2005, p.190).

Um dos principais sintomas do TEPT é a reexperiência do evento pós-traumático, que pode assumir memória de forma dolorosa recorrentes, através de sonhos ou pesadelos. Outros sintomas podem ser comuns em sujeitos com esse tipo de estresse, como por exemplo, o indivíduo ficar desinteressado em atividades diárias ou usuais, se culparem quando acham que são os responsáveis pelo evento, e até quando achar que deveriam estar no lugar da vítima. Podem apresentar também problemas de concentração e medo de locais ou situações que possam possibilitar uma repetição ou que se assemelhem ao trauma apresentado.

Estudos recentes apontam que a incidência de eventos estressores ligados à violência urbana vem sendo crescente. Atualmente, as principais ocorrências potencialmente traumáticas notificadas nas capitais brasileiras são: tentativa de homicídio, lesão corporal, estupro, atentado violento ao pudor, sequestro, roubo e furto. Ainda não existem dados oficiais sobre a prevalência de TEPT na população brasileira. Nos EUA, a prevalência do transtorno na população geral varia entre 5 a 8%.  (PASSARELA; MENDES; MARI, Revista Psiq. Clín. 2010).

É importante lembrar que a definição de TEPT pode conter algumas variações dependendo da escolha da abordagem psicológica.

E o que a psicoterapia pode fazer?

  Indivíduos que aderem a um processo psicoterapêutico estão sujeitos a vários tipos de benefícios, dentre os quais está a tomada de consciência das origens de seus comportamentos o que se mostra fundamental para o controle de suas emoções, tornam-se capazes de compreender com maior facilidade seus sentimentos, desenvolve uma melhor aceitação com outras pessoas e consigo mesma, apresentar níveis maiores de tolerância, e até mesmo diminuir ou cessar totalmente os sintomas de patologias causadas por um desequilíbrios emocionais.

Alguns estudos apresentam resultados significativos em favor da psicoterapia, a exemplo de uma pesquisa feita na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), demonstrando que determinados pacientes ao utilizar a psicoterapia interpessoal de grupo, para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) apresentam uma melhora significativa em determinado sintomas, tais como de 50% nos sintomas depressão e ansiedade e 80% de melhora nas questões de qualidade de vida e ajustamento social, também de acordo com o estudo, que utilizou uma escala internacional que vai de 0 a 136 pontos, a média inicial dos sintomas nos pacientes de TEPT era de 72,3 (severo) e ao final do tratamento, esse índice caiu para 36,5 (leve). “A tendência é que com a psicoterapia o paciente tenha uma recuperação total em até 6 meses após o tratamento”, afirma a psicóloga Rosaly Braga Campanini, do PROVE (Programa de Atendimento e Pesquisa em Violência).

Um indivíduo em situação de Estresse Pós-Traumático necessita de cuidado mais atencioso, visto que, as suas reações estão estritamente associadas à sua história de vida. Essa capacidade de lidar com certas emoções varia muito de um indivíduo para outro, dessa forma o acompanhamento psicológico é de grande auxilio em amenizar os impactos causados pelo fato traumático. A psicoterapia é um recurso necessário para que a pessoa possa reorganizar seu padrão de funcionamento mental e comportamental, objetivando uma reinserção do sujeito e seu processo de vida de modo saudável e independente.

Uma outra pesquisa foi realizada e publicada pela Revista psique ciência e vida, indicando os principais benefícios da psicoterapia no cérebro.

É apresentado um estudo com 36 policiais do estado de São Paulo, todos passaram pelo mesmo evento traumático. A pesquisa foi realizada 3 meses após os policiais sofrerem ataques de criminosos. Os policiais foram divididos em duas categorias, os que apresentavam o transtorno, e os que não: os com TEPT foram divididos em três grupos (Grupo 1, submetido à Psicoterapia e Grupo 2, em lista de espera, e 12 policiais com o mesmo histórico, mas sem TEPT crônico ou parcial como Grupo 3).

A pesquisa indicou os mecanismos neurais de policias traumatizados em relação ao enfrentamento (Grupo 1 submetido à Psicoterapia) e (Grupo 2 não submetido à Psicoterapia). Os Grupos 1 e 2 de policiais com TEPT apresentaram escores de sintomas similares nas medidas iniciais. Depois de Psicoterapia, o Grupo 1 se mostrou semelhante ao Grupo 3 quanto aos escores de sintomas e expressões neurais relacionados ao resgate da memória traumática. Ao final da pesquisa, apresentou-se que o Grupo 2 de policiais não submetidos à Psicoterapia continuou a apresentar os mesmos sintomas, com sinais de piora, enquanto os policiais submetidos à Psicoterapia apresentaram uma redução de pelo menos 37% nos escores totais da Escala de Avaliação Clínica (CAPS). Outros estudos, apontam que a abordagem comportamental tem grande eficácia no processo psicoterápico. Vale ressaltar que nosso intuito não é o de classificar quais as melhores abordagens para o tratamento de TEPT, e sim identificar os benefícios que se tem com a psicoterapia.

Sobre o Autor - José Renato

Referências:

HOLMES, David S. Psicologia dos transtornos mentais. Porto Alegre : Artmed, 1997. (159.97 H749p).

SPONCHIADO, Aline R; SILVA, Cristiane R; KRISTENSEN, Christian H. Psicoterapia Cognitivo-comportamental para o Transtorno de Estresse Agudo: Uma Revisão Sistemática. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. XV, nº 2, 2013.

PERES. Júlio F.P; NASELLO, Antônia G. Achados da neuro-imagem em transtorno de estresse pós-traumático e suas implicações clínicas. Revista Psiq. Clín. 2005.

BASTOS, Cláudio L. Tempo e psicopatologia cultural das experiências traumáticas. Rev. Latinoam. Psicopat. 2008.

PASSARELA, Cristiane M; MENDES, Denise D; MARI, Jair de J. Revisão sistemática para estudar a eficácia de terapia cognitivo-comportamental para crianças e adolescentes abusadas sexualmente com transtorno de estresse pós-traumático. Revista Psiq. Clín. 2010.

SOARES, Bernardo G. O; LIMA, Silva M. Estresse pós-traumático: uma abordagem baseada em evidências. Revista Brasileira Psiq. 2003.

CLINICA DE SAÚDE MENTAL DO PORTO. O que é Psicoterapia? Disponível em: <http://www.clinicadesaudementaldoporto.pt/002.aspx?dqa=0:0:0:24:0:0:-1:0:0&ct=5&gt;. Acessado em: 2020

DIÁRIO DA SAÚDE. Psicoterapia melhora em até 80% sintomas do estresse pós-traumático. Disponível em: <http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=psicoterapia-melhora-ate-80-sintomas-estresse-pos-traumatico&id=4219&gt;. Acessado em: 2020

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